Custo do Crédito Trava Investimento Privado em Moçambique
O acesso ao financiamento bancário em condições acessíveis continua a constituir uma das barreiras mais complexas para a modernização e expansão do tecido empresarial em Moçambique. O alerta foi lançado durante a segunda edição do fórum FUNDEC Economic Outlook, evento realizado em Maputo pela Fundação para a Competitividade Empresarial, reunindo líderes associativos, analistas e representantes do sector produtivo para debater os entraves à competitividade nacional.
Apesar de o sistema financeiro apresentar solidez e liquidez, o presidente da organização, Agostinho Vuma, sustentou que a abundância de capital nos cofres das instituições bancárias não se tem traduzido em alívio efectivo para a economia real. Sem taxas de juro que permitam amortizações comportáveis, as empresas enfrentam enormes dificuldades para adquirir maquinaria moderna, incorporar novas tecnologias, alargar as suas linhas de produção e gerar novos postos de trabalho sustentáveis.
O desfasamento entre as taxas de referência e o mercado
Um dos pontos centrais da discussão incide sobre a disparidade existente entre as ferramentas directoras do banco central e os juros efectivamente praticados no crédito comercial. Embora a taxa de política monetária (taxa MIMO) se encontre fixada em 9,25% pelo Banco de Moçambique, a Prime Rate do sistema financeiro permanece instalada nos 15,50%. Este diferencial penaliza em particular as pequenas e médias empresas, que constituem a base estruturante do emprego e do abastecimento doméstico.
“Não basta existirem recursos financeiros no sistema. É necessário que esses recursos consigam chegar à economia real em condições que permitam às empresas investir, adquirir equipamento, expandir a sua produção, inovar, criar emprego e competir”, sublinhou Agostinho Vuma.
A liderança empresarial advertiu ainda que a mera disponibilidade de oportunidades de negócio e a resiliência dos empreendedores moçambicanos são insuficientes quando o custo do dinheiro estrangula o cálculo de viabilidade dos projectos económicos. Entre os principais constrangimentos destacados pelos especialistas no encontro figuram:
- Redução das decisões de expansão: taxas de dois dígitos retraem a procura por linhas de crédito de médio e longo prazo destinadas à indústria e aos serviços.
- Perda de competitividade regional: o encarecimento financeiro eleva o custo final das mercadorias nacionais face a produtos concorrentes importados.
- Abrandamento na modernização técnica: adiamento na compra de equipamento industrial mais eficiente devido ao peso das amortizações.
Desafios para a transformação económica
Num momento em que o país procura consolidar o crescimento do Produto Interno Bruto e acelerar a diversificação das suas fontes de receita, o estrangulamento do crédito surge como um travão ao fortalecimento das cadeias de valor locais. Especialistas sublinham que a superação da dependência excessiva dos grandes projectos de recursos naturais exige um sector privado nacional robusto e capaz de gerar valor acrescentado no terreno.
Para que as perspectivas macroeconómicas se traduzam em melhorias tangíveis na renda das populações, os participantes do encontro reiteraram a urgência de um diálogo aprofundado entre as autoridades monetárias, a banca comercial e o empresariado. O objectivo é desenhar mecanismos e incentivos que facilitem o fluxo de crédito a custos realistas para os sectores produtivos da nação.
