Financiamento climático global atinge recorde de 136,7 mil milhões de dólares
Os países desenvolvidos não só cumpriram como ultrapassaram a meta histórica de mobilizar 100 mil milhões de dólares anuais para a acção climática nos países em desenvolvimento. Segundo o mais recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado esta quinta-feira, o financiamento climático global alcançou os 132,8 mil milhões de dólares (114,2 mil milhões de euros) em 2023 e atingiu um valor recorde de 136,7 mil milhões de dólares (117,5 mil milhões de euros) em 2024.Este marco histórico confirma uma trajectória de crescimento, superando as projecções iniciais da própria OCDE. A meta dos 100 mil milhões anuais (cerca de 86 mil milhões de euros) — que tinha sido fixada para 2020 e alcançada pela primeira vez apenas em 2022, com dois anos de atraso — está agora consolidada e amplamente ultrapassada.O financiamento público, canalizado através de vias bilaterais e multilaterais, continuou a ser o grande pilar desta arquitectura financeira, representando cerca de três quartos do montante total. Dentro da esfera pública, os empréstimos são o mecanismo dominante, compondo 73% do financiamento em 2023 e 67% em 2024. As subvenções — a fundo perdido — representaram 24% e 29% nesses mesmos anos.A distribuição destes instrumentos, porém, varia muito consoante o nível de desenvolvimento dos países beneficiários. Nos países de baixos rendimentos, as subvenções são vitais e representam cerca de 65% do financiamento público recebido, reflectindo directamente a limitada capacidade de endividamento destas economias face às exigências crescentes da crise climática.Financiamento privadoA grande surpresa do relatório partiu, no entanto, do sector privado. O capital privado mobilizado através de intervenções de fundos públicos registou o seu maior salto anual de sempre: um aumento de 33%, disparando para os 30,5 mil milhões de dólares (26,2 mil milhões de euros) em 2024.Este crescimento foi impulsionado essencialmente pelos bancos multilaterais de desenvolvimento e pelos fundos climáticos internacionais, que recorreram a investimento directo em empresas, garantias e empréstimos sindicados como principais mecanismos de alavancagem.O sector da energia continua a atrair a maior fatia deste capital privado, com 41% do total entre 2016 e 2024.Adaptação com pouca atençãoApesar dos números globais animadores, o relatório da OCDE lança um alerta em relação ao financiamento destinado à adaptação às alterações climáticas. O dinheiro direccionado para a mitigação — ou seja, para a redução de emissões de gases com efeito de estufa — continua a dominar o panorama global, representando quase dois terços de todo o montante disponibilizado.O apoio financeiro à adaptação, por sua vez, tem registado um crescimento demasiado modesto, fixando-se nos 34,7 mil milhões de dólares em 2024. Para que a comunidade internacional cumpra o objectivo estipulado no Pacto Climático de Glasgow — que exige a duplicação do financiamento da adaptação até 2025 face aos níveis de 2019 —, será necessário um aumento imediato de 5,8 mil milhões de dólares já no decurso do próximo ano.A trajectória recente, contudo, não traz boas notícias: entre 2022 e 2024, o crescimento anual deste tipo de financiamento foi de apenas cerca de um bilião (milhão de milhões) de dólares.O relatório destaca mecanismos emergentes para colmatar estas lacunas, como as trocas de dívida por natureza (“debt-for-nature swaps”) e o apoio através do novo Fundo Fiduciário de Resiliência e Sustentabilidade do Fundo Monetário Internacional.Zonas vulneráveis esquecidasO relatório da OCDE deixa ainda alertas para outras assimetrias que persistem. Os países de rendimentos médios continuam a atrair a vasta maioria do financiamento climático — 39% para os de rendimentos médios-baixos e 32% para os de rendimentos médios-altos no biénio 2023-2024. Por regiões, a Ásia (39%) e a África (29%) mantêm-se como as duas grandes beneficiárias dos fundos entre 2016 e 2024.O cenário é bastante diferente nas zonas mais vulneráveis do planeta. Nos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e nos Países Menos Desenvolvidos do mundo, uma proporção muito maior dos fundos vai para projectos de adaptação (46%), bem acima da média global. Estas nações dependem quase em exclusivo do financiamento público — que representa cerca de 86% a 89% do total recebido —, enfrentando barreiras significativas para atrair o sector privado, cuja presença fica reduzida a uma fatia residual de 7% a 10%.Com o fim da meta original dos 100 mil milhões em 2025, o foco vira-se agora para o Novo Objectivo Colectivo Quantificado, firmado na COP29, no Azerbaijão.Este novo quadro, concebido para entrar em vigor entre 2026 e 2035, apela a uma mobilização anual de pelo menos 1,3 biliões de dólares (1,1 biliões de euros), com os países desenvolvidos a liderarem com um compromisso mínimo de 300 mil milhões por ano (cerca de 260 mil milhões de euros). O grande desafio que transita para a próxima década não será apenas multiplicar o valor monetário, mas garantir que estes montantes chegam com eficácia aos países mais expostos às consequências da crise climática.



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