Ainda vale a pena tirar um curso superior?

Ainda vale a pena tirar um curso superior?

Ainda vale a pena tirar um curso superior?

Se receber esta newsletter no seu email tem acesso a mais conteúdos: uma síntese das notícias da semana educativa, em Portugal e lá fora; números e indicadores dos temas que marcam a agenda; imagens e curiosidades da História da educação. Subscreva.Caro leitor, cara leitora,Há uma pergunta que ainda surge em muitas famílias, no momento de fazer contas a quanto custa ter um filho no ensino superior: vale a pena investir numa licenciatura ou num mestrado? Os dados dizem que sim, que ter um curso superior é um investimento que compensa, tanto em termos individuais como económicos: em Portugal, cada euro investido no ensino superior traduz-se, em média, em 13,7 euros de retorno ao longo da vida profissional — um valor bem acima da média europeia.”Do ponto de vista geral, Portugal tem uma relação de custo-benefício muito boa”, nota Luís Catela Nunes, que, com Pedro Reis e Teresa Thomas, fez estas contas a propósito de um novo estudo que a Fundação Francisco Manuel dos Santos publica esta quinta-feira e que analisa os ganhos económicos associados ao prosseguimento de estudos no ensino superior, as transições do secundário para o superior e os seus efeitos no emprego e nos salários. Apesar de compensar ter uma formação superior, nem todos os diplomas “valem” o mesmo no mercado de trabalho. Os salários e as oportunidades continuam a depender — e muito — da área escolhida, do grau académico e até das características e do percurso profissional de cada um.Se há áreas em que o ensino superior continua claramente a dar vantagem são as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), a Engenharia e a Matemática e Estatística. Tirar uma licenciatura ou mestrado nestas áreas continua a traduzir-se em melhores remunerações e maior valorização no mercado de trabalho.Em média, um licenciado em TIC ganha 13,7 euros por hora, enquanto um mestre pode chegar aos 17,5 euros. No entanto, em profissões das áreas da Educação ou dos Serviços Sociais, as remunerações são significativamente mais baixas: um mestre em Educação ganha metade do salário de um mestre nas TIC.É o mestrado que garante hoje melhores remunerações: na Saúde, por exemplo, os mestres ganham em média mais 51% do que os licenciados; em Gestão e Administração, a diferença é de 35%; e nas TIC, de 28%. E garante também maior empregabilidade logo depois da conclusão dos estudos.Os investigadores deixam, no entanto, um aviso importante: ter um diploma não garante, por si só, salários mais elevados. Depende das próprias características dos trabalhadores, da área de estudo, da instituição que frequentaram e até das condições do mercado de trabalho.O contexto familiar continua também a ter um peso decisivo no percurso educativo dos jovens — desde a escolha entre o ensino profissional e científico-humanístico até à probabilidade de chegar ao ensino superior. E também porque continua a pesar bastante no orçamento das famílias portuguesas.Em Portugal, as famílias suportam cerca de 30% dos custos do ensino superior — mais do dobro da média da União Europeia, que é de 13%. E mesmo com propinas relativamente mais baixas do que noutros países, os custos associados a estudar continuam a ser um obstáculo para muitos jovens, sobretudo para os que vêm de contextos mais desfavorecidos.Por isso, alertam os autores, caso a decisão do Governo de aumentar as propinas se venha a concretizar, haverá mais “pressão” sobre as famílias. E será sempre fundamental que esse aumento seja acompanhado de um reforço das bolsas de estudo ou noutro tipo de apoios financeiros.Até porque o país vive um “dilema”: quer continuar a expandir o número de diplomados com ensino superior, mas tem também o objectivo de aumentar o número de alunos nos cursos profissionais, que, tipicamente, entram no mercado de trabalho logo depois do secundário —​ apenas 22% ingressam no ensino superior. Como é que se aproxima o ensino profissional do ensino superior?Para os autores, é preciso criar percursos mais flexíveis para quem quer voltar a estudar mais tarde. Introduzir provas de competências mais exigentes para o acesso aos concursos especiais, como o Governo parece querer fazer, pode afastar ainda mais estes jovens e adultos do superior. “Há um risco muito grande em aumentar a exigência por via central, por via do ministério”, diz Catela Nunes, que defende que é importante dar mais autonomia às instituições e confiar — embora com “accountability” que, no fundo, prestem contas sobre os resultados dos seus estudantes. Esta semana, o Conselho Nacional de Educação alertou para isto mesmo. Diz que, caso se mantenha a proposta do Governo, haverá uma diminuição “do número de candidatos nos concursos especiais, nomeadamente adultos em formação ao longo da vida”; um afunilamento dos que conseguiriam aceder a mestrados e doutoramentos; e uma “acentuação de desigualdades socioeconómicas e socioculturais”.Apesar de o ensino superior continuar a compensar em Portugal, a grande questão continua a ser esta: quem consegue realmente lá chegar?Outros temas da semana:Até quinta-feira!

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