TECNOLOGIA

Cientistas Registam Salto Quântico do Som Pela Primeira Vez

Cientistas Registam Salto Quântico do Som Pela Primeira Vez

No quotidiano perceptível aos sentidos humanos, qualquer som parece apagar-se de maneira contínua e suave, como o eco distante de um sino de igreja que enfraquece gradualmente até ao silêncio absoluto. No entanto, quando a matéria é observada na sua escala mais elementar, as regras clássicas deixam de funcionar. Recentemente, uma equipa de investigadores da Universidade Stanford alcançou um marco histórico na física moderna ao testemunhar, em tempo real, o momento exacto em que uma única unidade quântica de som desaparece de forma abrupta e instantânea.

O fenómeno, documentado num estudo publicado na revista científica Science, confirma experimentalmente uma previsão com décadas de existência. Enquanto transições semelhantes, designadas saltos quânticos, já tinham sido observadas em partículas de luz (fotões) e em iões isolados em laboratório, a sua manifestação directa nas vibrações mecânicas do som permanecia inalcançável até agora.

A mecânica discreta dos fônons

Para compreender a dimensão da descoberta, é necessário descer ao conceito de fônon. Ao contrário de uma partícula atómica tradicional, o fônon representa um pacote quantizado de vibração mecânica colectiva que percorre os átomos de uma estrutura sólida. Em sistemas macroscópicos, biliões de oscilações misturam-se, dando a ilusão de um decaimento suave. Mas no nível quântico, a energia não se dissipa como um fluxo contínuo; ela existe em níveis estritos e discretos.

A investigação liderada pelo físico Amir Safavi-Naeini conseguiu isolar o equivalente mecânico a um único fônon e acompanhar a transição directa desse estado de excitação para o estado fundamental de repouso absoluto, ou seja, de um para zero.

“Em nossos dados, medimos repetidamente o qubit em seu estado excitado ou fundamental e, no momento do salto, vemos uma mudança abrupta de um tipo de resultado predominante para o outro, em vez de um desaparecimento gradual”, explicou Amir Safavi-Naeini ao detalhar o comportamento registado pelos instrumentos.

Um microdiapasão integrado num chip

A proeza técnica foi viabilizada pelo fabrico de um dispositivo microscópico extraordinário: uma espécie de diapasão mecânico esculpido na superfície de um chip de silício. Este ressonador foi conectado a um qubit supercondutor de altíssima sensibilidade, concebido para agir como uma sentinela de leitura contínua.

O grande diferencial da experiência esteve na durabilidade do movimento:

  • Tempo de ressonância prolongado: O microdiapasão conseguiu sustentar a vibração durante aproximadamente dois milissegundos, uma eternidade relativa que, se aplicada proporcionalmente a um instrumento comum de tamanho real, equivaleria a horas seguidas de som ininterrupto.
  • Fidelidade de medição: Esse intervalo temporal dilatado permitiu que os sensores realizassem centenas de medições sucessivas, alcançando uma fidelidade de cerca de 85% na observação do estado quântico.
  • Transição limpa: O sistema permitiu registar com precisão o salto quântico sem perturbar a estabilidade frágil do sistema através do próprio acto de medição.

O impacto no processamento quântico e na tecnologia

Muito além de resolver um enigma teórico da física quântica fundamental, o sucesso do grupo de Stanford abre portas tangíveis para a arquitectura tecnológica das próximas gerações. Os cientistas procuram há muito formas confiáveis de armazenar informação quântica em suportes físicos estáveis.

As ondas acústicas e as vibrações mecânicas propagam-se a velocidades muito inferiores às da luz e ocupam espaços físicos consideravelmente menores nos circuitos integrados, o que torna os dispositivos mecânicos candidatos ideais para a concepção de memórias quânticas de alta densidade e sistemas avançados de correcção de erros em computadores quânticos. Embora a tecnologia ainda exija condições laboratoriais com temperaturas próximas do zero absoluto, a capacidade de detectar o momento exacto em que a energia sonora salta entre estados representa um passo decisivo rumo ao domínio completo da informação acústica a nível atómico.

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