ECONOMIA

África do Sul Investiga Exportações de Cimento de Moçambique

África do Sul Investiga Exportações de Cimento de Moçambique

O acelerado crescimento industrial de Moçambique acaba de esbarrar numa barreira regulatória no seu principal parceiro comercial regional. A Comissão de Administração do Comércio Internacional da África do Sul (ITAC) deu início a uma investigação formal sobre alegações de dumping nas importações de cimento com origem em Moçambique e no Vietname. A medida surge após fabricantes sul-africanos apresentarem queixas de concorrência desleal, alegando que o produto moçambicano está a entrar no mercado vizinho a preços significativamente abaixo do custo de referência.

Salto expressivo nas exportações regionais

Nos últimos anos, o cimento moçambicano conquistou um espaço sem precedentes no mercado da maior economia da África Austral. De acordo com dados do sector empresarial sul-africano, os volumes importados de Moçambique dispararam de cerca de 50 mil toneladas para cerca de 300 mil toneladas em 2025. Esse movimento acompanhou um ano recorde para as importações de cimento na África do Sul, que totalizaram cerca de 1,5 milhões de toneladas, registando uma expansão global de 28%.

A entrada maciça do produto nos circuitos de construção da África do Sul levou os produtores locais que operam no quadro da União Aduaneira da África Austral (SACU) a solicitar a intervenção das autoridades. A autoridade reguladora apontou uma margem preliminar de 90,51% para Moçambique, indicativo que fundamenta a abertura de averiguação formal, embora não signifique ainda uma imposição definitiva de tarifas aduaneiras ou sanções imediatas.

Investimentos industriais impulsionam oferta nacional

A expansão das remessas moçambicanas para o exterior não ocorreu por acaso; é o reflexo directo de fortes investimentos privados realizados na modernização do tecido industrial do país. Destaca-se a injecção de cerca de 110 milhões de dólares na fábrica de Nacala, projecto que elevou a capacidade instalada de 400 mil para 1,2 milhões de toneladas anuais e viabilizou a produção local de clínquer, a principal matéria-prima do composto.

Com mais fábricas em operação e maior autossuficiência produtiva, a indústria transformadora nacional ganhou escala suficiente não apenas para cobrir a procura interna de obras públicas e habitação, mas também para direcionar excedentes competitivos aos corredores de exportação da África Austral.

Novos desafios para a diplomacia económica

O processo antidumping instaurado em Pretória inaugura uma nova fase na gestão das trocas comerciais moçambicanas. Durante décadas, o país manteve-se predominantemente como comprador de produtos manufaturados sul-africanos; agora, a capacidade de concorrer em solo estrangeiro obriga as empresas e o Estado a aprofundar ferramentas de defesa comercial e diálogo bilateral.

O avanço das exportações industriais moçambicanas consolida a maturidade produtiva do país, mas coloca na ordem do dia a necessidade de uma diplomacia comercial activa para salvaguardar o acesso aos mercados vizinhos.

Nos próximos meses, exportadores nacionais e representantes governamentais deverão prestar esclarecimentos e submeter documentação contabilística aos peritos da comissão sul-africana, com o intuito de demonstrar a legalidade das práticas de comercialização e proteger os postos de trabalho gerados pelas fábricas moçambicanas.

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