TECNOLOGIA

A velocidade da arquitectura

A arquitectura, enquanto arte, tem um magnetismo invulgar. Talvez por todos termos um pouco de arquitecto dentro de nós, nem que seja na infância, quando, a brincar, imaginamos construções com o que esteja à mão. A História da arquitectura é longa, milhares de anos de surpreendentes avanços e regressos. Desde o primeiro tratado sobre este ofício, escrito há mais de dois mil anos, inúmeros outros sucederam-se, observando-se no último século um aumento substancial de livros e revistas especializadas. Em paralelo aumentou também o universo à volta da produção e divulgação arquitectónica: feiras, simpósios, congressos e todo o tipo de prémios e distinções. O interesse por arquitectura sempre existiu e extravasa o próprio métier dos arquitectos.Com o surgimento da Internet, seguido do progressivo declínio económico das revistas e editoras tradicionais, a publicação de arquitectura concentrou-se nos meios digitais, nomeadamente em plataformas e redes sociais. Com isso, a divulgação passou de um carácter antológico para algo mais próximo do noticioso ou até publicitário. Os novos meios levaram a uma intensificação do processo de comunicação que é agora mais rápido do que nunca. Já não se esperam meses para que uma revista publique determinada obra. As imagens circulam e competem para captar preciosos segundos de atenção de modo a que os algoritmos, por sua vez, a façam divulgar a mais pessoas.Com uma exposição cada vez maior e, por conseguinte, um grau de saturação mais sensível, a busca pela novidade, o “disruptivo”, a próxima “grande coisa”, intensificou-se. Parece haver um certo descompasso entre uma disciplina que produz edifícios com uma permanência expectável de 50 anos e a publicação de novidades a um ritmo quase diário. A pressão pode ser esmagadora para muitos. Uns simplesmente optam pelo isolamento, negando esta realidade; outros mergulham nela de cabeça, centrando-lhe o foco.Embora a velocidade da divulgação tenha acelerado exponencialmente, a da construção não mudou; tão-pouco a das várias fases e procedimentos projectuais que a precedem. Uma obra continua a demorar uns bons anos desde os primeiros esquiços até à sua conclusão e respectivo uso. Visto sob outro prisma, um edifício comporta tal pegada ecológica que apenas se justifica numa permanência de décadas de utilização, afastando-se da lógica de curto prazo de indústrias mais efémeras, como a da moda.Será que a actual velocidade da arquitectura — ou melhor, da sua divulgação sob a forma de imagem — está a mudar a forma como a percepcionamos? Ou, mais importante, poderá estar a condicionar os próprios processos de concepção, ainda que inconscientemente? Será que dimensões que não se conseguem transmitir pelos habituais canais poderão estar a ser preteridas?Pode a abundância de conteúdos ser inimiga da profundidade de conhecimento? Nunca tivemos acesso a tanta informação como hoje; ainda assim, não é incomum encontrar estudantes de arquitectura que nunca estiveram num estaleiro de obra, que nunca visitaram ao vivo um edifício de referência, cujo único contacto com arquitectura notável foi através de uma qualquer publicação digital.É inegável o privilégio de desfrutarmos da acessibilidade de conhecimento dos tempos actuais. Desde que isso não implique um divórcio do mundo físico, dado que a arquitectura é uma arte cuja plenitude apenas se revela na sua presença real. Bem podemos todos mergulhar na hiper-realidade que continuaremos a precisar de edifícios; daqueles com paredes, portas e janelas; que lutam para não deixar entrar a água e o frio; e que são mais do que meros abrigos, algo que nos permite elevar enquanto seres humanos. A arquitectura, pela sua natureza, sempre assentou numa lógica de longo prazo. No final do dia, será como sempre foi, lenta e construída.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Bloqueio de Anúcio Activado!

Por favor, desative para continuar...