Crónica de uma mala perdida

Crónica de uma mala perdida

Crónica de uma mala perdida

Após mais de vinte anos sem usar o autocarro como transporte, decidi fazer o trajeto Portimão/Lisboa numa dessas empresas em que uma viagem de ida custa quase tanto como uma meia de leite e uma tosta mista servidas num centro comercial. Olhei para o carro, lembrei-me do preço atual do gasóleo e das portagens, e julguei estar a fazer a escolha acertada.Independentemente de tudo, e atendendo à minha predisposição natural para o insólito e o inesperado, teria certamente uma nova história para contar.Cá está ela.A viagem começou mal ainda antes de iniciar. Um percurso de 15 minutos de automóvel até à estação transformou-se numa eternidade devido a uma súbita chuvada de granizo que, à saída do carro-boleia, me provocou uma atrapalhação de malabarista amadora: domar a enxurrada de água, o vento, um guarda-chuva desobediente, a mala com o computador, a mala de mão, um saco de pano e a mala de viagem, tudo num só instante.O autocarro chegou ao mesmo tempo que eu. Tive apenas tempo para colocar a mala de viagem na bagageira e entrar apressada, com os restantes pertences nos braços. Ainda metade dos passageiros da retaguarda estava de pé, à procura dos seus lugares, e já o autocarro seguia marcha. A motorista tinha pressa de chegar.Fiquei sentada nos bancos de trás, mesmo ao centro, com dois desconhecidos de cada lado. Entre conversas íntimas que escusava de escutar e funk brasileiro como banda sonora, pois, mesmo com phones, o som chegava aos meus ouvidos, acabei por adormecer. O tempo não custou a passar.Foi o vizinho do lado esquerdo que me despertou. Acordei ensonada e quase sem perceber onde estava. Peguei na mala com o computador, na mala de mão e no saco de pano, e saí do autocarro, apressada. Avancei em direção ao shopping e não tinham passado cinco minutos quando vi alguém com uma mala de viagem e me lembrei da minha, esquecida na bagageira.Corri de volta ao local de estacionamento do autocarro, mas este já tinha partido. Encontrei uma das passageiras, que me ajudou a tentar perceber se conseguiria reaver a mala, mas o esforço foi inglorioso: entre uma colaboradora da empresa que mal falava português, um balcão de atendimento já encerrado e vários motoristas de sorriso inexistente que me responderam não ter forma de contactar a motorista do meu autocarro, lancei a toalha ao chão. Sexta-feira, 20h. Só na segunda-feira seguinte a linha de apoio estaria disponível.Na mala, seguia toda a roupa para o fim de semana que tanto esperara, a 1.ª edição do Comboio Literário da LeYa, um par de ténis e os cosméticos. Acabei por comprar o básico no shopping e mentalizei-me que faria a viagem com roupa emprestada.Resumindo: o dinheiro que poderia ter poupado em portagens e gasóleo foi gasto em roupa interior e cremes.O fim de semana, vivido entre livros, escritores e História, foi suficientemente surpreendente para me esquecer da mala perdida, mas chegaria o momento de perceber se haveria esperança de reaver o que tinha ficado esquecido.Consegui, por fim, na segunda-feira, encontrar a bilheteira aberta. A linha de apoio continuou sem funcionar. Na mesma fila, atrás de mim, um turista espanhol, acabado de chegar de Fátima, a quem tinham roubado a mala: quando saiu do autocarro para a apanhar na bagageira, alguém se antecipou e levou-a. Desconfio que tenha sido por tudo, menos por engano.Juntando esta história real acabada de ouvir à informação de que o autocarro em que tinha viajado pertencia a uma empresa subcontratada e que, nesse caso, os perdidos e achados estariam noutro local, tornando o processo mais demorado, imaginei que seria melhor aceitar a realidade: perdera a mala.Desgostosa, entrei no autocarro rumo ao Sul, agarrada à bagagem que me restava como uma leoa a proteger as suas crias. Fiz uma última tentativa: telefonei à tal empresa subcontratada, que me comunicou que a motorista da viagem Portimão/Lisboa não tinha declarado nenhuma bagagem extraviada. Desolação total.O autocarro tinha chegada prevista a Portimão às 19h. Às 17h, recebi uma chamada de uma voz calorosa, que me perguntou o nome completo, a morada e se tinha perdido uma mala. Era o motorista do mesmo veículo que me transportara na sexta-feira que encontrara a minha mala.Esta acabara por chegar a Portimão antes de mim, depois de um fim de semana intenso de viagens para a frente e para trás, entre o Algarve e Lisboa. Quis a boa fortuna que a mala azul tivesse ficado escondida num recanto da bagageira e só agora, graças ao olhar atento deste motorista de boa índole, revelasse a sua existência: aqui estou eu, a mala perdida.Entre mil agradecimentos e quase lágrimas, numa conversa que se prolongou, tomei conhecimento, e partilho consigo para que tenha atenção, caso seja utilizador frequente deste meio de transporte, de que existe na Gare do Oriente toda uma indústria de larápios de mãos velozes que se dedicam a retirar as malas da bagageira antes que os respetivos donos consigam lá chegar. Depois, deixam-nas a céu aberto, num terreno baldio próximo, despojadas do seu recheio, sobrando apenas, após vistorias de muitos olhares, aquilo que não serviu a ninguém.Além disso, há também uma fauna frequente que começa a viagem com uma mala e a termina com duas ou três. Parece que não é só no Parlamento que há quem aprecie malas alheias.Chegada por fim, a casa, constatei que tudo estava como deixado, há quatro dias.Entretanto, passada uma semana, recebi este e-mail:”Lamentamos que tenhas perdido algo durante a tua viagem connosco.Depois de consultarmos os nossos escritórios de perdidos e achados e os nossos parceiros de autocarros, lamentamos informar-te de que até ao momento o teu artigo perdido não nos foi entregue. Gostávamos de te dar melhores notícias. Se o teu artigo aparecer mais tarde, entraremos imediatamente em contacto contigo.”Mais uma vez, fiquei com a certeza: a empatia para com os outros e pequenos gestos de bondade espontânea são o que ainda nos salva.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

Publicar comentário