Exército do Mali usa bombas de fragmentação soviéticas e <em>drones </em>russos contra os rebeldes
O exército maliano utilizou uma bomba de fragmentação, fabricada na União Soviética em 1981, para bombardear Tadjmart, localidade na região do Kidal, no Norte do Mali, actualmente controlado pelas forças independentistas tuaregues e pelos jihadistas ligados à Al-Qaeda. Estas bombas são proibidas pela Convenção de Munições de Dispersão, adoptada vai fazer este sábado 14 anos, de que o Mali é signatário, mas a Rússia não.Esta é a primeira vez, desde o começo do conflito no Norte do Mali em 2012, que se sabe do recurso a este tipo perigoso de arma, que tem tanto de letal quanto de aleatório na escolha das suas vítimas. Não só porque a bomba é feita de pequenas bombas que se espalham por uma vasta área, o que dificulta o controlo dos danos colaterais, como alguns explosivos acabam por não deflagrar, prolongando no tempo o perigo que representam para a população.De acordo com uma investigação conjunta da Bellingcat e da revista Jeune Afrique, depois de uma notícia da RFI da semana passada ter referido a existência dessas bombas, citando testemunhas no terreno, a bomba de fragmentação em causa é uma RBK-500, cujo dispensador pode transportar até 565 submunições ShOAB-0,5. Há notícias de que outra bomba do mesmo género terá sido usada na região de Tombuctu.
Depois dos golpes militares de 2020 e 2021, o novo regime convidou as forças ocidentais que ajudavam no combate aos insurgentes a deixar o país, preferindo recorrer aos amigos russos e aos paramilitares do Grupo Wagner que depois seriam absorvidos pelo Estado russo e transformados em Africa Corps. Isto apesar de em 2013, quando os tuaregues tomaram várias cidades do Norte e ameaçaram com a secessão, terem sido os franceses a impedir que os rebeldes tivessem êxito nos seus intentos.A aliança com Moscovo inclui homens, equipamentos e armas, além das RBk-500, os russos também terão fornecido drones Shahed-136, de fabrico russo, tecnologia iraniana e alguns componentes chineses. Na semana passada, os tuaregues abateram um desses drones, o que permitiu confirmar a sua presença no teatro de guerra do Sahel. A primeira vez que se confirma o uso deste tipo de equipamento no teatro de guerra no Sahel. Uma escalada que parece demonstrar a pouca eficácia dos paramilitares russos no seu auxílio aos militares malianos.Vladyslav Vlasiuk, o comissário ucraniano para a Política de Sanções, dizia esta quarta-feira, em declarações ao Ukrinform, que “a Rússia está a transferir cada vez mais as suas tecnologias militares e os seus equipamentos de guerra para outras regiões, particularmente África. E fá-lo em grande medida graças a componentes de dupla utilização que continuam a chegar às instalações de produção russas sem impedimentos.”Vlasiuk referia-se ao facto de se terem encontrado no drone abatido no Mali componentes fabricados por empresas chinesas, nomeadamente microchips, transístores, díodos e relés saídos das linhas de produção da Mornsun, Wayon Electronics, GigaDevice, Shenzhen Codaca Electronic, STMicroelectronics e NCR Industrial.
Jihadismo sofisticadoDe acordo com o ACLED (Armed Conflict Location & Event Data), um grupo independente de monitorização de conflitos, em nenhum outro lugar do mundo a ameaça do jihadismo global é maior do que em África, sobretudo na zona do Sahel.“Juntamente com uma vasta rede de filiais do Estado Islâmico/Daesh, que se estende da África Ocidental até à África Central e Oriental, outros grupos, como o Al-Shabaab e o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), operam sob a alçada da Al-Qaeda”, diz o último relatório do ACLED, publicado a 13 de Maio. “A sua influência ultrapassa fronteiras nacionais, ameaçando a estabilidade dos governos africanos e sustentando redes globais de militância e de contrabando.”Uma expansão tornada possível pela sofisticação de armas e tácticas, diz o ACLED. O uso de internet por satélite e drones, nomeadamente no Sahel, tornou os jihadistas mais ousados e ambiciosos nas suas operaçõesO JNIM é um desses grupos que passaram a usar drones nos seus ataques, conta o relatório do ACLED. Formado pela Al-Qaeda no Magrebe Islâmico e pelos grupos armados malianos Ansar Dine, Al-Murabitun e Katiba Macina, o JNIM juntou forças com os tuaregues da Frente de Libertação de Azawad para a grande operação de 25 de Abril no Norte do Mali e nos arredores da capital, Bamaco, (que resultou na morte do ministro da Defesa e principal artífice da aproximação a Moscovo, o general Sadio Camara).Desde o primeiro e único ataque com veículos aéreos não tripulados do JNIM em 2023, o uso de drones pelos jihadistas cresceu exponencialmente, havendo registos de mais de 80 incidentes no ano passado. O grupo está mais ousado nas suas ambições de derrubar o regime militar.



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