Esta casa é vizinha de um cemitério — mas quem está lá dentro nem nota
Foi ao lado do maior cemitério do Porto, no lugar de uma antiga oficina de automóveis, que António Cruz quis “revisitar o imaginário industrial”. Agora concluído, o projecto da casa unifamiliar reúne elementos industriais e componentes naturais para construir o estilo “norte-americano” que os clientes procuravam.
O antigo armazém, brinca o arquitecto, era “basicamente um barraco”. Sem a possibilidade de reabilitar o prédio, passou então a trabalhar no projecto de uma nova construção. “Foi um desafio engraçado pensar como é que seria criar um ambiente de um loft, fugindo um bocado aos dogmas da arquitectura convencional”, conta o arquitecto e fundador do estúdio António Bessa Cruz Architect.
O projecto combina materiais como betão, madeira escura, ferro e tijolo maciço. Com “amplos pés direitos e o open space da sala, ligado com a cozinha” o arquitecto trouxe à Boavista a “onda industrial” pretendida.
No entanto, apesar do estilo norte-americano, o loft não tem vista para o Central Park. Localizado bem à frente do cemitério de Agramonte, um dos desafios do projecto foi justamente fechar a casa para a “vista que não interessava” da rua e, ao mesmo tempo, manter uma “relação contínua entre interior e exterior”.
“Como é que nós fazemos uma casa com luz natural, completamente encerrada para a rua?”, questionava-se António Cruz. A resposta que encontrou foi “recorrer ao uso de pátios internos”. Os espaços exteriores-interiores são conseguidos através de clarabóias e trepadeiras, que trazem à casa “luz natural e amplitude visual”. O contraste entre a vegetação e o betão nos dois pátios, frisa o arquitecto, são essenciais para tornar o ambiente mais “natural” e “arejado”.
“Quando estamos na sala”, defende António Cruz, “olhamos para a esquerda e para a direita e temos sempre o exterior, temos sempre o jardim”. Com este “espaço muito amplo”, o arquitecto afirma ter evitado “a sensação de que a casa é fechada para a rua”.
O projecto, que teve início em 2018 e foi encerrado no ano passado, quis “pensar a arquitectura de uma forma menos convencional e mais cenográfica”. Mantendo como único elemento do edifício original o arco da porta de entrada, António Cruz fez da antiga oficina uma casa moderna, que define em uma palavra como “brutalista”.
Texto editado por Mariana Durães



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