Ex-carmelita, artista plástico brasileiro aborda em mostra até violência do celibato
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O artista plástico paulista Rodrigo Cass, 43 anos, abriu, desta vez em Lisboa, a exposição Geometria Sensível, nesta terça-feira, 26 de maio, na Brotéria. A mostra, que já está em cartaz no Porto, é a primeira exposição individual de Cass na Europa. Espalhadas pelos dois andares da belíssima casa de cultura multidisciplinar, as 14 obras — entre esculturas e instalações — podem ser vistas no espaço aberto pelos jesuístas em 2020, no Bairro Alto, até o dia 31 de julho.Com trabalhos em coleções de destaque mundial como o Centre Georges Pompidou (Paris) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Cass, que foi carmelita (Ordem do Carmo) durante nove anos, no Brasil, conta que despertou para as artes plásticas por incentivo dos padres do Convento do Carmo, em São Paulo.“Entrei para a vida religiosa porque sempre fui muito irrequieto e queria compreender muitas questões da vida e refletir sobre elas. E, quando entrei [para a Ordem do Carmo], fui muito bem acolhido pelos padres, e pude demonstrar os dons que eu tinha”, conta ele. “Eu fazia bolos de festa, placas para o jardim, decorava a casa do convento. Então, os freis me convidaram para fazer um curso de iconografia bizantina. Foi quando eu comecei a pintar capelas no estilo bizantino”.Durante o noviciado, Cass ainda estudou artes visuais na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, e, depois, filosofia e teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE), em Minas Gerais. Todo esse período dedicado à vida religiosa pode ser observado nos trabalhos do artista.“Eu queria trazer para a exposição uma relação dos quatro elementos: ar, fogo, terra e água. E uma autorreflexão, que é algo muito importante na vida religiosa. A tomada de consciência. A ciência está tentando provar que a consciência não morre, ela permanece. E todo amor que a gente deposita, esse jamais morrerá”, diz ele, que dialoga com os legados do concretismo e do neoconcretismo.Da exposição, ele destaca Loving Love (Healing), uma projeção em vídeo, instalada ao pé da imponente escadaria do Brotéria. “A rosa tem uma frequência impressionante. Ela cura. Às vezes, quando minha energia está baixa, eu toco numa rosa e me sinto melhor”, garante ele, que, com a obra, quis fazer uma homenagem para a artista plástica canadense Agnes Martin (1912-2004). Em Loving Love (Healing), ele usa resíduos de materiais carnavalescos para obter um efeito de purpurina na tela.A Mão Pegando a Bíblia também é evidenciada por Cass. “É a primeira vez que eu uso uma bíblia, que é algo muito sagrado”, frisa ele, que acrescenta: “Nesse vídeo, a mão pega uma bíblia como se fosse a tentativa de pegar a palavra, de viver a palavra. E a palavra é muito importante, a palavra falada, meditada, encarnada”, reflete.CelibatoEle também provoca o público com o vídeo Ferro na Cueca, no segundo andar do espaço. “Aborda também a sexualidade e um pouco a violência que é viver o celibato. Eu fiz esse vídeo quando eu era frei carmelita”, diz. “Mas não é para atacar, é para refletir. Não é uma crítica a algo. É despertar uma reflexão em quem vê a obra, que pode ser feita livremente”, enfatiza.Segundo os curadores João Sarmento, da Companhia de Jesus, e Nuno Crespo, o trabalho de Rodrigo Cass articula dois gestos que raramente se vê em simultâneo: “por um lado, um formalismo rigoroso, que encontra na geometria e na cor (muitas vezes reduzida a campos monocromáticos) uma forma de depuração e concentração; por outro, uma abertura a uma dimensão sensível e experiencial, onde o gesto emerge como inscrição do corpo, da memória e de uma certa ideia de mundo”.
Além de Lisboa, Cass inaugurou Geometria Sensível no dia 20 de maio, na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. No Norte do país, a mostra fica em cartaz até 3 de outubro.
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