TECNOLOGIA

O perigo do Verão que chegou antes de começar

No final de Maio, o Verão ainda não começou no calendário, mas já se instalou no território. A onda de calor que Portugal atravessa não é um episódio isolado: confirma um padrão em que as estações se comprimem, a transição entre Primavera e Verão se encurta e o risco se antecipa.O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) já tinha sinalizado este cenário há algum tempo. Na previsão sazonal para o período entre 25 de Maio e 21 de Junho, apontava-se para temperaturas acima do normal em todo o território, com desvios mais acentuados no arranque — entre 1,5 e 10 graus Celsius acima da média, sobretudo no interior do país.


Previsão do IPMA para o mês de Junho
IPMA

Em Junho, o boletim do IPMA com a previsão alargada indica também valores acima do normal em todo o território e em todas as semanas, com variações que podem ir entre os 0,5 graus Celsius e os seis graus Celsius, dependendo da região do país.A meteorologista Margarida Belo Pereira nota que, para avaliar os meses que aí vêm, temos de olhar para as normais climatológicas que incluem os dados do período entre 1991 e 2020. É aqui que vemos a temperatura média em Portugal, nos diferentes meses e regiões. Em Lisboa, em Agosto, por exemplo, a temperatura médica é de 28,8 graus Celsius. Dito isto, o que teremos pela frente?“Esperamos temperaturas acima da média para Junho, Julho e Agosto. Muito provavelmente, teremos um Verão mais quente do que o normal, entre os Verões mais quentes que temos tido”, resume a especialista, em declarações ao Azul, sublinhando que estes prognósticos devem ser lidos com alguma cautela devido a um considerável grau de incerteza.


A previsão sazonal do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês) coincide: “É provável que a temperatura sazonal se situe acima da média em todas as regiões, sendo o sinal mais claro observado nas zonas sudeste do continente [europeu]. Como é habitual, os sinais relativos à precipitação são muito mais fracos do que os relativos à temperatura para o período de Junho a Agosto, prevendo-se que as zonas orientais registem um total de precipitação sazonal abaixo da média.” Mais: as temperaturas acima da média podem persistir em Setembro e Outubro.Incêndios sem precedentes em 2026Onde há calor, há (risco de) fogo. Em meados deste mês de Maio, um grupo de investigadores deixou o alerta: os incêndios florestais deverão atingir um nível “particularmente severo” em todo o mundo em 2026, impulsionados pelas alterações climáticas e pelo fenómeno El Niño.Theodore Keeping, investigador do Imperial College de Londres, confirmou que o risco acrescido para Portugal “está principalmente ligado às alterações climáticas, que aumentam a frequência de condições quentes, secas e ventosas — e não a fenómenos de El Niño”.O retrato dos primeiros meses de 2026 deveria ser suficiente para afastar qualquer ilusão de normalidade climática. Segundo um balanço divulgado esta terça-feira pela World Weather Attribution (WWA), mais de 150 milhões de hectares arderam no mundo entre Janeiro e Abril, cerca do dobro da média recente para este período. A escala é inédita.


Previsões do IPMA, baseadas em modelos, das temperaturas médias para o próximo mês de Julho
IPMA

Mas não é preciso olhar para trás. O extemporâneo Verão que vivemos nos últimos dias seria suficiente para provar a mudança. Num comunicado de imprensa da WWA, a cientista Friederike Otto, também do Imperial College de Londres, não hesitou na explicação para a onda de calor que actualmente sufoca a Europa: “Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado.” A mesma cientista já tinha alertado antes: “O clima em que vivemos hoje já não é aquele em que crescemos.” Em Portugal, essa realidade sente-se cedo — cada vez mais cedo.O “fósforo” das tempestadesA este contexto junta-se a herança das tempestades de Inverno, que deixaram um volume anormal de biomassa — árvores derrubadas e material vegetal acumulado em dezenas de milhares de hectares do Centro e do Norte. Com a subida das temperaturas, este material seca e transforma-se em combustível disponível.Em Fevereiro, António Salgueiro, especialista em incêndios e colaborador da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), falava ao Azul de um “risco assustador”.Três meses depois, Salgueiro sublinha que a temperatura é apenas uma das variáveis do perigo de incêndio, a par da humidade, do vento e da precipitação, devendo os valores ser lidos à luz do histórico de incêndios e da eficácia das intervenções. “Neste momento estamos longe de valores preocupantes, mas existem condições para arder, o que no nosso clima é frequente e recorrente”, conclui.Tempo para agirForam anunciados apoios à limpeza de terrenos e mecanismos de intervenção, mas a escala dos eventos extremos supera muitas vezes a capacidade de resposta. Quando milhões de árvores caem em poucos dias e o calor chega mais cedo, o calendário da prevenção encurta-se.A área afectada pelas tempestades é extensa, mas relativamente circunscrita. Além desta zona de risco mais elevado, há o resto do território. Um dos indicadores usados em Portugal para avaliar o risco de grandes incêndios é a área ardida acumulada. Actualmente ronda os 690 mil hectares nos últimos seis anos: abaixo do limiar de 750 mil hectares associado a cenários de menor risco, mas suficientemente próximo para dar espaço a algum alívio.


Previsões do IPMA sobre a temperatura média para o mês de Agosto de 2026
IPMA

Para já, António Salgueiro insiste que, “face à grande disponibilidade de recursos de que dispõe o nosso país, os incêndios em condições ‘normais’ não são preocupantes, pois dão tempo suficiente e têm intensidades que permitem a sua resolução de forma mais ou menos directa e expedita”. O problema, diz, “são os que ocorrem em condições extremas, que para já ainda não temos”.Claro que as ondas de calor contribuem para agravar as condições e aumentam as probabilidades de ocorrerem condições extremas, que este ano poderão ocorrer abaixo do contexto histórico face aos impactos da tempestade Kristin, reconhece, por outro lado, o especialista.Incertezas e escolhas humanasO padrão climático é claro: temos incêndios mais frequentes e intensos, num contexto que prolonga as condições favoráveis ao fogo. Ainda assim, as previsões a médio prazo mantêm um elevado grau de incerteza, como lembrava Paulo Fernandes em 2025, ano dos megaincêndios.Com incerteza sobre o futuro, há, por outro lado, importantes lições do passado recente. No sul da Europa, a transformação está em curso há anos: mais dias de calor extremo, menos humidade no solo, épocas de incêndios mais longas e menos previsíveis. Portugal não é excepção. E o que acontece agora, no final de Maio — a antecipação de condições típicas de pleno Verão — é mais um sinal dessa mudança.Francesca Di Giuseppe, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo, resume o dilema: “O clima cria as condições, mas são as escolhas humanas que determinam a dimensão do desastre.”A gestão do território, a prevenção e a resposta continuam a fazer a diferença, numa responsabilidade partilhada entre o Estado e todos os portugueses, sobretudo os proprietários de terrenos “inflamáveis”.Talvez seja essa a mudança mais evidente: o Verão deixou de ser uma estação marcada no calendário. O Verão é quando chega — mesmo que seja em Maio — e dura mais tempo.

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