Pesquisa une Brasil e Portugal e mostra desafios de mulheres na tecnologia

Pesquisa une Brasil e Portugal e mostra desafios de mulheres na tecnologia

Pesquisa une Brasil e Portugal e mostra desafios de mulheres na tecnologia

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

A carioca Renata Frade construiu uma história que junta tecnologia, comunicação e inovação social. Doutora em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pela Universidade de Aveiro e pela Universidade do Porto, em 2025, Renata é autora de uma pesquisa sistemática e comparativa sobre comunidades de mulheres em tecnologia nos dois maiores países lusófonos em expressão digital: Brasil e Portugal. O estudo mapeou 247 comunidades e produziu uma tecnologia própria, testada e patenteada, capaz de identificar, categorizar e conectar redes femininas em ecossistemas tecnológicos.Ela vive em Portugal há quase dez anos e atua simultaneamente nos mercados acadêmico, corporativo e público, desenvolvendo projetos entre os dois países e voltados ao tecnofeminismo, à ética em inteligência artificial (IA) e à inclusão digital feminina. E trabalha como pesquisadora, empresária tecnológica, consultora, formadora, produtora de conteúdo e autora.O trabalho sobre comunidades de mulheres em tecnologia abriu um novo campo de estudos científicos sobre representatividade feminina em tecnologia nos contextos lusófonos e consolidou uma metodologia participativa, feminista e decolonial aplicada à investigação de comunidades digitais, segundo ela. A pesquisa também gerou ferramentas e programas para adolescentes e jovens em territórios periféricos, a exemplo da Fiocruz Hack Girls, LitGirlsBr e Logadas.Antes da carreira acadêmica, Renata acumulou mais de 15 anos de experiência prática em empreendedorismo tecnológico e comunicação digital. Formada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), atuou como jornalista, consultora e desenvolvedora de projetos digitais para empresas multinacionais europeias e norte-americanas, associando teoria e prática desde o início da carreira. Ainda nos anos 1980, no Rio de Janeiro, o contato precoce com a tecnologia marcou a sua infância.Descendente de portugueses, cresceu cercada por jogos eletrônicos, revistas de ciência e dispositivos raros para o contexto brasileiro da época. “Eu tinha curiosidade técnica, aptidão e um pai que me deu acesso à tecnologia de ponta para o Brasil dos anos 80. Mas o que foi encorajado em mim como vocação profissional foi apenas a escrita, a leitura, a comunicação. Era o que se esperava de uma menina brasileira de classe média na altura”, relata a pesquisadora.Na universidade, vivenciou o surgimento da internet comercial no Brasil. “A ironia veio depressa. No primeiro ano do curso, a internet abriu-se à sociedade brasileira. Eu tinha acabado de fazer 17 anos e, mesmo sem computador em casa, porque era caro, me inscrevi no curso de internet do laboratório de informática da universidade. Fui provavelmente uma das primeiras pessoas a comunicar online no Brasil, através do programa BBS”.Atuação internacionalRenata conta que conheceu no Rio de Janeiro, em 2008, o pesquisador norte-americano Henry Jenkins, referência mundial em narrativa transmedia e cultura participativa. O encontro ampliou sua atuação internacional. “Mantive contato com ele e a equipe que o acompanhou e fui convidada para participar de uma conferência multidisciplinar de transmedia aplicado a esportes, direito, educação, literatura, entretenimento, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Foram aulas fundamentais para a minha carreira profissional pois passei a dar aulas, consultorias, cursos, palestras e projetos de transmedia no Brasil e depois pelo mundo”.A veia empresarial falou alto em 2010, quando co-fundou a empresa Punch! Comunicação e Tecnologia, responsável por projetos pioneiros no Brasil, incluindo um dos primeiros aplicativos literários interativos para iPad do país, desenvolvido com recursos multimédia, jogos e interação por toque.Foi também durante a experiência enquanto empresária que ela diz que enfrentou episódios de discriminação de gênero no setor tecnológico. “Sofri preconceito por ser mulher algumas vezes em reuniões de prospecção e apresentação de trabalhos a clientes, sobretudo ligados à tecnologia”, relata.A partir desse contexto, aproximou-se da comunidade Girls in Tech Brazil, experiência que redefiniria sua trajetória profissional e acadêmica. “Foi acolhida ao ponto de me tornar, por três anos, uma das líderes voluntárias”. O contato com mulheres em transição de carreira, profissionais invisibilizadas e lideranças sem reconhecimento institucional a encaminhou para a formulação da pesquisa de doutorado.“Mapeei 247 comunidades em Portugal e no Brasil, com 25 entrevistas a lideranças, etnografia digital em 50 eventos nacionais e internacionais, focus groups e quatro estudos de caso aprofundados: Minas Programam, Geek Girls Portugal, São Paulo WiMLDS e Mulheres em Inteligência Artificial”.TechnofeminismoSegundo Renata, o tecnofeminismo vai além da simples presença feminina na tecnologia. Trata-se de um campo crítico surgido a partir do ciberfeminismo e orientado à investigação das relações de poder, exclusão e impacto social associados ao desenvolvimento tecnológico contemporâneo.“O quarto movimento feminista é chamado ciberfeminismo e nele surgiu este conceito. As comunidades de mulheres em tecnologia surgiram nos Estados Unidos há 30 anos e há cerca de 20 anos surgiram as primeiras no Brasil e em Portugal simultaneamente”, afirma.A pesquisadora destaca que as comunidades femininas se tornaram espaços centrais de inclusão tecnológica. “Creio que uma diferença importante está na escala e ressonância institucional. O Brasil tem comunidades de mulheres em tecnologia em maior quantidade e maiores, com tradição consolidada de ativismo de base articulada com pautas estruturais – raça, classe, periferia, formação técnica gratuita”. Quanto a Portugal, ela aponta características estruturais importantes, como a janela europeia, e uma orientação mais corporativa, de negócios, voltada ao desenvolvimento de competências para o mercado de trabalho.“As duas vozes precisam uma da outra, e é por isso que mantenho a investigação simultaneamente nos dois países. Por ser luso-brasileira, nunca me pareceu uma escolha acadêmica; é uma continuidade biográfica”, acrescenta.Desde 2021, Renata atua como editora e produtora de conteúdo do site Pop Junctions, debatendo temas ligados à IA, ao feminismo tecnológico, a jogos e à cultura digital com pesquisadores e executivos internacionais. E, em 2023, organizou e coeditou o livro Technofeminism: Multi and Transdisciplinary Contemporary Views on Women in Technology, publicado em inglês pela UA Editora.A obra, diz ela, tornou-se referência internacional sobre feminismo e tecnologia ao reunir estudos sobre comunicação, inteligência artificial, design, jogos, interação humano-computador e justiça social. “O ponto principal do Technofeminism é simples e ao mesmo tempo inédito: foi o primeiro livro lusófono a sistematizar o tecnofeminismo numa perspectiva genuinamente transdisciplinar”. O livro já conta milhares de downloads em acesso aberto e foi apresentado em eventos internacionais como IEEE World Forum on Internet of Things, AtGender, HCI International e Universitat Pompeu Fabra.Além da produção acadêmica, Renata também atuou como colunista do Mídia Ninja, escrevendo sobre mulheres em tecnologia e ampliando o debate para além do ambiente universitário. Ela participou de mais de 40 conferências e eventos em nove países, além de outras atividades.Pós-doutoradoAtualmente, ela desenvolve um pós-doutorado na Universidade Católica Portuguesa, no Programa em Desenvolvimento Humano Integral, e conduz uma nova investigação sobre IA e mulheres em tecnologia. Busca também parceiros institucionais, acadêmicos, e empresariais no Brasil e em Portugal, para co-desenvolver novos projetos nas áreas de inclusão digital e capacitação de mulheres e jovens em tecnologia, e em IA com perspectiva de gênero e decolonialidade.Outro foco é para a pesquisa aplicada com comunidades de mulheres em TI e políticas públicas e programas de ensino digital para populações vulneráveis. “O que me interessa nos próximos cinco anos é uma agenda pública sobre IA em Portugal centrada nas pessoas concretas que a IA está afetando, sobretudo mulheres, imigrantes, mulheres maduras em transição, jovens em escolhas de carreira profissional, comunidades em periferia digital”, complementa a empreendedora e pesquisadora carioca.
App PÚBLICO BrasilUma app para os brasileiros que buscam informação. Fique Ligado!

Publicar comentário