Lisboa de Jardins Abertos para cultivar o sentido de comunidade

Lisboa de Jardins Abertos para cultivar o sentido de comunidade

Lisboa de Jardins Abertos para cultivar o sentido de comunidade

No início, eram 80. Hoje, são aos milhares os visitantes do festival Jardins Abertos. Engendrado por Tomás Tojo — jardineiro, activista e director — e Rosana Ribeiro, tem vindo a acumular adeptos, com ou sem “mão verde”, atraídos pelo cruzamento de “botânica, arte e sustentabilidade” praticado, ano após ano, numa selecção de jardins lisboetas.Nesta 15.ª edição, são 20 os que abrem os portões e se deixam rechear de propostas para todas as idades e condições. A ideia de comunidade, tão cara às raízes da iniciativa, cresce e fortalece-se. Em harmonia com o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável, estes Jardins Abertos querem “regressar ao essencial” e reforçar “a importância de nos ligarmos, entre nós e à natureza”, frisa a organização. “Dar, receber, colaborar e cooperar” são os verbos a cultivar.Entre os locais escolhidos, vários são “exemplos verdes de como a cidade se constrói a partir da iniciativa e da vontade partilhada de quem nela habita”, explicita. É o caso do projecto de vizinhança dos moradores da Rua Cidade de Manchester, na freguesia de Arroios, ou do Jardim Provisório da Quinta do Ferro, na Graça, dois dos cinco estreantes no mapa dos Jardins Abertos. Os outros novatos são o espaço comunitário da Escola Secundária Gil Vicente, o jardim da Liga para a Protecção da Natureza e o espaço Nova Bela Flor.Na classe de repetentes, temos clássicos como a Estufa Fria, o Jardim Gulbenkian ou o Parque Florestal de Monsanto. Institucionalmente falando, podem mandar-nos ir passear ao jardim do Tribunal Constitucional ou ao da Procuradoria-Geral da República – Palácio Palmela.O rol completa-se com os jardins do MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, do Bombarda, do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta e do Palácio Fronteira, a Horta Alto da Eira, a Quinta Conde dos Arcos, o Parque Botânico do Monteiro-Mor, o Permalab da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a Quinta Pedagógica de Lisboa e a floresta urbana do Vale do Casal Vistoso (pela associação Urbem).


É no meio destes “palácios, hortas comunitárias, florestas urbanas e projectos de vizinhança” que brotam visitas guiadas, oficinas de toda a estirpe (compostagem, permacultura urbana, pintura, desenho plantas aromáticas, fotografia…), exposições, percursos, passeios, mercados, piqueniques, jogos, música, relaxamento, brincadeiras e muitas actividades para arregaçar as mangas a toda a família.Escolhemos dez entre as dezenas que estão alinhadas para este fim-de-semana (23 e 24 de Maio) e o próximo (30 e 31), e elencadas em www.jardinsabertos.com. A participação é sempre gratuita. Não é necessária inscrição prévia mas convém ter atenção para não perder a vez: como vale a ordem de chegada, o melhor é chegar cedo.Descobertas perfumadasNa exuberância da Estufa Fria, um dos locais com mais actividades, descobre-se O Murmúrio da Lava, uma colecção de obras de Carolina Vieira e Catarina de Oliveira, “inspiradas na vida gerada e alimentada pelo que vem do ventre da Terra”, lê-se na folha de sala da exposição, ali patente até 23 de Agosto e visitável todos os dias de Jardins Abertos. Especificamente para a ocasião temos, por exemplo, as Paisagens Perfumadas que se revelam já neste sábado, às 11h. Esta experiência sensorial — reservada a maiores de 16 anos — é conduzida pelo Lisbon Perfume Club e pretende “explorar, lado a lado, a fragrância e a natureza (…) por entre fetos, costelas-de-adão e cactos”.Bioblitz na escolaApresentada como “um verdadeiro oásis verde na Rua da Verónica”, a Escola Secundária Gil Vicente é um terreno aberto à educação e à comunidade, onde existe uma horta urbana agroecológica (da Rizoma), um projecto de Florestas na Cidade e o ponto de encontro e brincadeiras Brincapé, Gil! É naquela horta que, na manhã deste sábado, pelas 11h, se solta o cientista-cidadão em cada visitante: há que fazer o levantamento, em modo bioblitz, das espécies de insectos que ali vivem. Uma equipa da Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal está lá para ajudar.


Escola Secundária Gil Vicente
Cláudia Pereira

Foco na naturezaAinda no primeiro sábado, mas às 14h30, nos jardins do Palácio Fronteira, Alina de Oliveira conduz uma oficina de fotografia. Destina-se a maiores de 14 anos e transforma este lugar histórico e inspirador da capital em alvo e “matéria poética” das objectivas dos participantes. Não é preciso ter experiência; a ideia é desenvolver o olhar — “atento à luz, às formas, às cores e aos detalhes naturais” — e promover “a descoberta de uma linguagem visual pessoal em diálogo com o espaço envolvente”.Hortas, ferramentas, e práticasNovo nesta rota, o espaço Nova Bela Flor, em Campolide, quer dar a conhecer os seus cantos, recantos e objectivos. Às 11h de dia 24, promove uma visita guiada ao projecto de agricultura urbana dinamizado pela Upfarming, em conluio com o Bairro da Bela Flor, a academia da NOVA IMS Information Management School e o Banco Alimentar Contra a Fome.Sob as tílias, abrandarSob a copa das grandes tílias que cobrem quem sobe, desce e vive as escadinhas da Rua da Cidade de Manchester, realiza-se no dia 24, pelas 16h, uma aula aberta de tai chi. Orientada por Alfredo Santos e destinada a maiores de seis anos, faz da sombra destas árvores, tão estimadas pela comunidade local, o palco de uma tarde domingueira que chama “a abrandar, a alinhar corpo e respiração e a explorar movimentos suaves que promovem equilíbrio, concentração e bem-estar”.Banhos como manda a leiSábado, 30 de Maio, é dia de banho de floresta no jardim do Palácio Ratton, casa do Tribunal Constitucional. Às 11h, gente de todas as idades é chamada a uma imersão neste refúgio, cortesia da Forest Bathing Portugal e da prática/terapia antiga japonesa que consiste em “abrandar, respirar fundo e despertar os sentidos através do contacto atento com a natureza”. Também os jardins do Palácio Palmela (Procuradoria-Geral da República) recebem sessões destes banhos, em ambos os sábados, pelas 16h.


A vida sexual das plantasMais uma sugestão reservada a maiores de 16: Ivo Meco, professor, divulgador, apaixonado por botânica e autor de Das Plantas num Livro e Jardins de Lisboa – Histórias de espaços, plantas e pessoas, dirige uma visita sobre A Vida Sexual das Plantas e Outras Histórias. É no dia 30, às 15h30, no Jardim Gulbenkian, e propõe que aprendamos com a flora local as “variadas e engenhosas estratégias de reprodução que as plantas guardam”.


Desenho em campoUm caderno de campo, um lápis de grafite, caneta e aguarelas é tudo o que é preciso para participar na actividade agendada para 31 de Maio, às 10h, no jardim da Liga para a Protecção da Natureza. A ilustradora Renata Reynaud orienta miúdos e graúdos na descoberta da biodiversidade que aqui se refugia, partilhando dicas de observação e registo. No final, é certo que “cada participante levará consigo um caderno cheio de plantas e memórias do jardim”.A arte de bem verdejarNo último domingo, às 10h30, os Jardins do Bombarda autorizam as famílias a Semear e Propagar, nos Viveiros Verdejar. João Martins orienta uma oficina prática, daquelas de “meter as mãos na terra, nas sementes e nas mudas”, para “semear, observar e pôr a germinar diferentes tipos de plantas”, sabendo que o que ali prosperar será mais tarde transplantado para outros locais da cidade, para a tornar ainda mais verde.


No fim, a partilha à mesaNo encerramento, serve-se Tempo de Primavera, “um momento singular e envolvente, onde a arte, a comida e a natureza se encontram à mesa em diálogo”. Trata-se de uma refeição colectiva, preparada pela dupla criativa Joy Food (Alice Artur e Joana Trindade Bento) e temperada para celebrar “o alimento como meio artístico e ferramenta de transformação social”, explica a carta. Está marcada para dia 31, às 19h, no Parque Botânico do Monteiro-Mor (Lumiar).


Parque Botânico do Monteiro-Mor
Rui Gaudêncio

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