"Obra Reunida" de José Alberto Oliveira revela 30 poemas inéditos
A “Obra Reunida” de José Alberto Vieira inclui uma introdução do poeta e crítico literário Manuel de Freitas, que se apresenta no texto como seu amigo, referindo-se a Vieira como “indubitavelmente o mais silencioso companheiro de ‘snooker’ com que a vida [o] presenteou”.
José Alberto Oliveira nasceu na freguesia de Souto da Casa, no Fundão, foi médico cardiologista e estreou-se literariamente em 1984 no “Anuário de Poesia de Autores Não Publicados”, da Assírio & Alvim.
O primeiro livro foi publicado oito anos mais tarde, “Por Alguns Dias”, um “discreto aparecimento” que se situava “nos antípodas” do “fulgor baço escuramente saturnino” que marcava o cenário da poesia portuguesa que “parecia tender para um tom melancólico, nem sempre muito aliciante”, lê-se na nota introdutória.
Nesse livro Oliveira escreveu: “Renunciei / à melancolia — suponho / que com algum embaraço”. Em 2018, no livro “Passagem”, especificou: “Não é melancolia, são pormenores”.
Manuel de Freitas chama a atenção para “o título (programático se quisermos)” do primeiro livro de José Alberto, “Por Alguns Dias”, o que em seu entender “sugere só por si uma permanência efémera num planeta bastante senil e sem grandes hipóteses de redenção”.
O crítico literário refere ainda que logo no primeiro livro, o poeta, há “o testemunho invulgarmente ameno de uma descrença geral” — “Devemos / crer em tudo, exceto em Deus, / na pátria, em nós e nos outros”, escreveu José Alberto Vieira em “Por Alguns Dias”
Manuel de Freitas destaca “a admirável (im)precisão com que vêm intitulados muitos dos livros publicados entre 1997 e 2021, como por exemplo ‘Mais Tarde’ (2003), ‘Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito’ (2007) ou ‘Como se Nada Fosse’ (2015)”.
Este volume inclui “Bestiário” (2004) que, como refere Freitas, “talvez não seja exatamente um livro de poemas”, e cita o autor que a ele se refere “cautelosamente”, numa nota final em “Tentativa e Erro” (2011), como “um artefacto de natureza diferente”.
“Obra Reunida”, num total de 724 páginas, segue cronologicamente os diferentes títulos publicados por José Alberto Oliveira, rematando com os inéditos.
Quando da sua morte, em 14 de maio de 2023, em Lisboa, a Assírio & Alvim, em comunicado, referiu a amizade que mantinha com o poeta, uma “presença assídua” que “aconselhou a publicação de inúmeros livros, colaborou na revista A Phala, partilhou leituras, opiniões e críticas”.
“Foi um dos grandes responsáveis pela afirmação da editora no panorama literário português e a sua falta será profundamente sentida”, garantiu, na ocasião, a Assírio & Alvim.
José Alberto Oliveira foi também tradutor de, entre outros, W.H. Auden, Russel Edson, Frank O’Hara, Edgar Allan Poe, Li Shang-yin, Charles Simic e Mark Twain.
Oliveira colaborou igualmente no livro coletivo “Rosa do Mundo — 2001 poemas para o futuro”, grande coletânea da poesia mundial, também editado nesta coleção, no início do novo milénio.
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