Quem quer ler o guião perdido de Larry David pré-<em>Seinfeld</em> (mas que acaba por integrar <em>Seinfeld</em>)?
Talvez Rochelle Rochelle seja um título mais reconhecido pelos espectadores de Seinfeld, um filme e uma peça mencionados em três episódios e que fazem parte da mitologia da série, mas e se falarmos em Prognosis: Negative? Parte de dois episódios e da lista de filmes ficcionais que a série de Larry David e Jerry Seinfeld envolvia no seu enredo, é afinal um filme nunca feito de Larry David, cujo guião bem real foi agora comprado em leilão e disponibilizado na Internet.Mencionado num episódio da quarta temporada, mas central no terceiro episódio da terceira temporada da série de culto, Prognosis: Negative (Prognóstico: Negativo, numa tradução literal) é a história de um homem incapaz de se comprometer numa relação e que sabe que uma ex-namorada foi diagnosticada com cancro e decide retomar a relação por saber que a doença é incurável e lhe dará pouco tempo de vida. Leo Black de seu nome, comporta-se de forma familiar para os espectadores de Seinfeld ou Calma, Larry!: é um misantropo, adstringente, que se envolve em situações para as quais muitas vezes não tem arcaboiço para avaliar correctamente. (Rochelle Rochelle, já agora, é a história de uma jovem que viaja de Milão para Minsk e que sempre soou a algo soft core.)Algo disto sabia-se por uma entrevista de Larry David ao programa Fresh Air, da rádio pública norte-americana NPR, mas o mito esclareceu-se em Fevereiro graças a Aromatic_Zebra_9601.Aromatic_Zebra_9601 é o nome de utilizador no Reddit de um jovem de 24 anos que encontrou a segunda versão do guião, datada de 3 de Maio de 1983, no site de leilões eBay. E procedeu a comprá-lo. Não é conhecida a sua proveniência antes de chegar ao eBay, mas é dado como autêntico. E a “zebra aromática”, cujo nome é afinal Jeremy Smith, decidiu disponibilizar o guião para todos lerem, aqui.Os media deram por isso na semana passada e o diário norte-americano The New York Times foi falar com Robert B. Weide, um dos primeiros apoiantes de Prognosis: Negative quando era chefe de desenvolvimento numa agência de Hollywood especializada em comédia. Weide viria a tornar-se produtor e realizador de Calma, Larry!. Prognosis: Negative foi “provavelmente o guião mais engraçado que li durante todo o meu tempo” na agência, disse ao jornal.Mas o projecto não avançou, não tendo sequer hipótese de encontrar quem o quisesse filmar. Os sócios da agência Rollins, Joffe, Morra & Brezner (Rollins e Joffe não serão desconhecidos do público de Woody Allen, seus produtores), que trabalhou e promoveu carreiras como a de Robin Williams ou Billy Crystal, gostaram do argumento.“O problema fundamental”, como foi dito numa reunião dos sócios responsáveis com o jovem Larry David “era que a personagem principal, Leo, não era nada ‘gostável’”. Este e outros comentários constam das notas da reunião, que Weide partilhou com o New York Times. Nessa espécie de acta lê-se ainda que Brezner “apontou problemas ao facto de Leo ser ‘demasiado étnico’ — demasiado judeu/neurótico. Esta personagem já foi demasiado explorada”.Weide recorda-se de Brezner ter perguntado a Larry David se havia alguma forma de tornar Leo mais simpático.“Larry David estava a pensar nisso e a ponderar”, descreve Weide. “Depois olhou para Brezner e disse: ‘Não, acho que não.’ E ficámos assim.”Weide não desistiu logo e ainda reuniu com David para falarem de potenciais realizadores, como Carl Reiner ou Mike Nichols. Mas o projecto do então argumentista do Saturday Night Live e de uma série chamada Fridays nunca saiu da gaveta. Questionado há cerca de 15 anos sobre se gostaria de o ver agora filmado, dada a carreira fulgurante de David precisamente como autor e intérprete de homens rabugentos ou egoístas (e naturalmente judeus, como o seu autor) nas últimas décadas, este respondeu apenas: “Acho que já superei esse guião”. Weide foi o autor da pergunta, certo de que seria bem mais fácil encontrar agora um estúdio para o filme, mas o caso ficou encerrado.Larry David conseguiria, seis anos depois de Prognosis: Negative ser engavetado, ver a sua sitcom Seinfeld no ar. Entre 1989 e 1998, fez-se uma referência da história televisiva. Seguir-se-ia Calma, Larry!, em que David se interpreta a si mesmo, talvez numa versão um pouco exagerada, um sucesso menos aglutinador do público de massas mas ainda assim um ícone de culto.Tudo ligado. “Leo Black é Larry David”, disse Weide ao New York Times. “Assim como George acabou por ser Larry David em Seinfeld e depois Larry acabou por ser Larry David em Calma, Larry!. Há uma clara ligação contínua. É a personalidade. É a atitude dele em relação à vida. É sobre não tolerar a estupidez ou a incompetência sorrindo e acenando”. Larry David não comentou este reaparecimento do seu guião de 1983.Como tantas outras obras do passado-passado ou do passado recente, há séries de culto nas quais o olhar actual detecta abordagens a certos temas que não resistem à passagem do tempo para alguns espectadores mais críticos, nomeadamente tudo o que vise comunidades alvo de exclusão. Prognosis: Negative teve comentários sobre o seu foco em traços de personalidade atribuídos a um judeu, exemplo de como certos temas não encontram um espaço seguro em parte ou tempo algum.Fora da bolha de uma década de Seinfeld, produto de uma época e da liberdade do humor, Jerry Seinfeld, que actua em Portugal este ano e outrora quase unânime no ser “gostável”, tornou-se visivelmente menos querido de fatias do público, por exemplo desde que comentou a guerra de Israel sobre a Palestina de forma dura: “Digam só que não gostam de judeus. Ao dizer ‘Libertem a Palestina’, não estão a admitir o que realmente pensam. Por isso, na verdade — em comparação com o Ku Klux Klan, acho que o Klan é um pouco melhor, porque podem dizer logo à partida: ‘Não gostamos de negros, não gostamos de judeus’. OK, isso é honesto”, disse o comediante numa palestra em Setembro passado na Universidade de Duke, sem que fizesse parte de um discurso enquadrado no humor.



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