Milhares de franceses protestaram contra justiça no caso da morte de criança de 11 anos
Milhares de pessoas saíram às ruas em França, no último domingo, para pedir justiça por Lyhanna, uma menina de 11 anos cuja morte chocou o país. Segundo o jornal francês Le Monde, os manifestantes reuniram-se à frente dos tribunais de quase 200 cidades, de Toulouse a Lille, e criticaram a falta de acção da Justiça contra o principal suspeito do homicídio, Jérôme Barella, que acumula queixas de abuso sexual de menores há quase dez anos e nunca foi preso.Segurando cartazes com mensagens como “Je suis Lyhanna”, foram mais de 60 mil os manifestantes espalhados pelo país, segundo números compartilhados nesta terça-feira pelo Ministério do Interior. Condenaram as falhas do sistema francês, que apontam também como responsável pela morte, e pediram a demissão do ministro da Justiça, Gérald Darmanin, que já recusou sair do cargo. Numa conferência de imprensa, afirmou que vai “revelar toda a verdade sem esconder nada aos franceses” e, no canal televisivo TF1, pediu desculpas à família de Lyhanna, acrescentando que o Estado deveria ter lidado com o suspeito mais cedo.O Presidente francês, Emmanuel Macron, condenou aquilo a que chamou falhas “inaceitáveis” no sistema de justiça. “É evidente que houve uma disfunção”, disse numa cimeira europeia em Montenegro.Lyhanna entrou no carro de Jérôme Barella ao sair da escola, a 29 de Maio. Foi a última vez que foi vista com vida. Seis dias depois, o corpo da menina francesa foi encontrado num silo de cereais onde o principal suspeito trabalhara no passado.Barella, de 41 anos, é funcionário de uma escola e pai de duas crianças. Uma delas é uma rapariga que estudava com Lyhanna na cidade de Fleurance, no sudeste da França. Nega ter matado Lyhanna, e afirmou à polícia que apenas levou a vítima no seu carro até a piscina local.De acordo com a procuradora Clamence Meyer, a primeira queixa contra o Barella foi registada em Dezembro de 2017, quando a mãe de uma menina de 17 anos denunciou a relação entre a filha e o homem. Em 2018, o caso foi arquivado após a adolescente alegar consentimento.Em 2021, o suspeito foi demitido da função de funcionário de outra escola por comportamento online inapropriado com uma estudante, segundo o jornal britânico The Guardian. Não se sabe se nesta ocasião Barella foi reportado à polícia.Em Janeiro de 2022, avançou Meyer, Barella voltou a ser denunciado por abuso sexual, desta vez de uma menina com menos de 15 anos. O caso teria acontecido em 2020, e foi arquivado em 2024 por falta de provas.A terceira queixa foi apresentada em Agosto de 2025, quando a mãe de uma menina de dez anos denunciou Jérôme Barella por abusar repetidamente da menina, ao longo de nove meses. A criança era amiga da filha do francês e ia brincar para sua casa regularmente. Quando Lyanna foi morta, a polícia ainda não tinha interrogado Barella.Uma nova queixa foi apresentada contra Jérôme Barella na última quarta-feira, mas Meyer não partilhou mais detalhes.Sébastien Lecornu, primeiro-ministro da França, disse estar “particularmente chocado” com o caso numa reunião de emergência com os ministros da Justiça, do Interior e do Orçamento. E solicitou a apresentação das conclusões iniciais de um inquérito administrativo sobre o caso ainda dentro de um prazo de duas semanas. Lecornu convocou outra reunião ministerial, na manhã de quarta-feira, para decidir outras medidas para a protecção das crianças e o combate à violência sexual, segundo o jornal francês Le Monde.Os procuradores franceses receberam ordens para reavaliar, até 14 de Julho, todas as cerca de 70 mil queixas pendentes envolvendo vítimas menores de idade. Segundo a Comissão Independente sobre o Incesto e Violência Sexual contra Crianças, apenas 7% das queixas por agressão sexual de menores e 3% das queixas por violação de crianças resultam em condenações em França.Texto editado por Pedro Sales Dias



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