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Morreu James “Blood” Ulmer, guitarra e vocalista de free jazz, funk e blues

Willie James Ulmer, ou James “Blood” Ulmer, que começou a tocar aos quatro anos na Carolina do Sul, filho de um pastor baptista que o pôs também a cantar desde tenra idade, morreu na última quarta-feira, aos 86 anos. A família só anunciou esta segunda-feira, nas redes sociais, o óbito deste nome grande da vanguarda da música americana que se tinha retirado dos palcos no final de 2024, já debilitado.Guitarrista único e vocalista que muito ia beber aos blues, usava (como o seu herói Wes Montgomery, que rejeitou aliás dar-lhe aulas) o polegar da mão direita para tocar música livre, entre o free jazz, o free funk e o rock, num mundo pós-Jimi Hendrix. Depois de passar por bandas de funk, r&b e doo-wop em zonas como Pittsburgh, na Pensilvânia – onde se cruzou com a futura estrela George Benson, na altura um prodígio adolescente da guitarra que lhe ensinou algumas coisas –, Columbus, no Ohio, ou Detroit, no Michigan, mudou-se para Nova Iorque. Foi lá que tocou com os Jazz Messengers de Art Blakey e conheceu Ornette Coleman, ideólogo do free jazz que o introduziu ao conceito de “harmolodics”, termo cunhado pelo próprio que junta “harmonia”, “movimento” e “melodia”, para dar importância igual a todos esses elementos, fugindo dos cânones, para lá das escalas e dos acordes normais.Ulmer, dizia Coleman, com quem tocou e gravou, era um músico naturalmente talhado para esse conceito. Foi na convivência com o mentor que, explicaria em entrevistas, teve um sonho em que afinava a guitarra toda na mesma nota, procedimento que foi usando ao longo dos tempos. Coleman produziu-lhe o primeiro disco a solo, Tales of Captain Black, com o saxofonista e colaboradores do seu grupo de free funk Prime Time, o baixista Jamaaladeen Tacuma e o baterista Denardo Coleman (o apelido não engana: é filho de Ornette).Seguiu-se Are You Glad to be in America?, disco que saiu pela editora independente britânica Rough Trade, e em que tocava ao lado dos saxofonistas David Murray e Oliver Lake, o trompetista Olu Dara, o baixista Amin Ali e os bateristas G. Calvin Weston e Ronald Shannon Jackson. Não era bem um equívoco. Fez digressões com os Public Image Ltd, o grupo pós-punk do então já ex-Sex Pistols Johnny Rotten, e Jazz is the teacher, funk is the preacher, um dos temas do álbum, apareceu na compilação em cassete C81, do jornal New Musical Express (NME), junto a nomes como Scritti Politti, The Beat, Pere Ubu, Orange Juice, The Specials, Buzzcocks, The Raincoats ou Subway Sect.Assinou pela grande editora Columbia em 1981, tendo ali lançado três álbuns, Free Lancing, Black Rock e Odyssey, também o nome de uma formação com o baterista Warren Benbow e o violinista Charles Burnham onde as afinações na mesma nota estavam em evidência. Voltaria, depois, ao mundo independente.Ao longo da sua carreira, foi mantendo formações como os Music Revelation Ensemble, com David Murray e Ronald Shannon Jackson, que lançaram em 1980 o disco No Wave, nome partilhado com movimento musical avant-garde nova-iorquino; os Phalanx, ao lado do saxofonista George Adams; e os Third Rail, com o baixista Bill Laswell e o baterista Joseph “Zigaboo” Modeliste, e os teclistas Bernie Worrell, dos Parliament-Funkadelic e dos Talking Heads, e Amina Claudine Myers.Tocou ainda com figuras como Ry Cooder, na banda sonora de Crimes Invisíveis, de Wim Wenders, Hank Marr, Joe Henderson, John Patton, Arthur Blythe, Pharoah Sanders, John Zorn ou Vernon Reid, o guitarrista dos Living Colour que produziu discos seus assumidamente de blues. Foi acompanhado deste último que se apresentou, com a Memphis Blood Blues Band, na edição de 2014 do festival Jazz em Agosto, em Lisboa.

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