Um tinto de lugar, feito nas talhas da Vidigueira

Um tinto de lugar, feito nas talhas da Vidigueira

Um tinto de lugar, feito nas talhas da Vidigueira

O portuense Hamilton Reis faz no Alentejo da talha vinhos em talha, barrica e inox, que nos prendem os sentidos sem se porem em bicos dos pés. Vinhos em que não há uma nota fora de tom e que nos conquistam pela sua aparente simplicidade, fruto, afinal, de um trabalho aturado e super focado. Vinhos como o Natus Tinto são mais do que aparentam ser, revelando-se em várias camadas a quem as quiser descobrir e tocando mesmo aqueles que buscam num copo de vinho prazer afilosófico.Como explica Hamilton Reis, Natus “não quer dizer natural, quer dizer nascido”. Os Natus (há um branco também) foram os primeiros vinhos do projecto pessoal e familiar do enólogo que de dia trabalha na Herdade do Mouchão e quando chega a casa (e sempre que pode) trabalha na vinha e na adega dos Natus e dos Intus — vinhos que surgiram mais tarde e que, ao contrário dos primeiros, são trabalhados em inox, de forma a deixar de fora da equação a influência de materiais como o barro ou a madeira.Quatro hectares de vinha dão quatro vinhos, dois tintos e dois brancos, num projecto muito focado. Este Natus tinto nasce de uvas colhidas à mão em vinhas não aramadas, onde há maioritariamente Trincadeira e Castelão, no sopé Sul da Serra do Mendro, e pisadas a pé durante dois dias. O mosto sai directamente da prensa para as talhas centenárias que Hamilton arranjou na região e é já sem as películas que fermenta no barro, por acção de leveduras indígenas. Terminada a fermentação, estagia em pipas centenárias de carvalho e castanho português e em barricas de carvalho francês também usadas até à vindima do ano seguinte, altura em que é decantado e engarrafado, sem mais intervenção.Se só o líquido vai para o barro, porquê usar talhas? Estamos na Vidigueira, Alentejo, é a terra delas. A abertura no topo da talha permite trabalhar o vinho num processo oxidativo, sendo que depois a afinação é feita pela microoxigenação da barrica. No início da Natus Vini, o verbo era “voltar”: “voltar à terra, às tradições e à identidade local”. E, por isso, usar “a talha era fundamental”, explica Hamilton Reis, que faz questão de sublinhar que estes “são vinhos que fazem a fermentação em talha”.Este 2023, acabadinho de chegar ao mercado, dá-nos aromas de fruta vermelha e preta, chão de bosque, envolvidos por um lado resinoso (pinheiro) muito delicado e um toque de fumo. Na boca, oferece um tanino aveludado, acidez viva, que se traduz numa frescura imensa e picante, e mineralidade, tudo muito harmonioso, numa prova perfeita e com final longo. É um tinto cheio, não tanto no volume, mas no sabor, na fruta suculenta. Se há vinho em que é possível juntar os atributos rusticidade e elegância na mesma frase, é este Natus tinto.Um vinho que conta ainda a história de uma viticultura e vinificação respeitadora, distinta e economicamente viável — deixar fora da talha as películas, e só para dar um exemplo enquanto continuamos a escrever sobre o Natus tinto, permite ao produtor tirar mais rendimento de cada talha e “ganhar capacidade” na sua adega de garagem, já que, por vindima, cada talha faz mais do que um vinho.

Nome Natus Tinto 2023
Produtor Natus Vini;
Castas Trincadeira e Castelão
Região Alentejo
Grau alcoólico 13%
Preço (euros) 28 a 30
Pontuação 95
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Este 2023, acabadinho de chegar ao mercado, dá-nos aromas de fruta vermelha e preta, chão de bosque, envolvidos por um lado resinoso (pinheiro) muito delicado e um toque de fumo. Na boca, oferece um tanino aveludado, acidez viva, que se traduz numa frescura imensa e picante, e mineralidade, tudo muito harmonioso, numa prova perfeita e com final longo. É um tinto cheio, não tanto no volume, mas no sabor, na fruta suculenta. Se há vinho em que é possível juntar os atributos rusticidade e elegância na mesma frase, é este Natus tinto, filho de viticultura e vinificação respeitadoras, feito em talha mas não de talha. Fermenta na talha, como manda a Vidigueira, mas sem as películas e, finda a fermentação, estagia em pipas centenárias de carvalho e castanho português e em barricas de carvalho francês também usadas até à vindima do ano seguinte, altura em que é decantado e engarrafado, sem mais intervenção.

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