Montaigne e os tupinambás
No Outono de 1562, Michel de Montaigne, fascinado pelo Novo Mundo que os europeus foram descobrindo, ocupando e colonizando ao longo do século XVI, fez quase 700km, de Bordeaux a Rouen, para conhecer pessoalmente três índios brasileiros Tupinambás, trazidos para França por uma nau de regresso da colónia de pouca dura “França Antártica”, que os franceses estabeleceram na Baía da Guanabara entre 1555 e 1567.Na sua curta, mas luminosa, biografia de Montaigne, escrita em Petrópolis no fim da vida, em 1942, Stefan Zweig comenta assim o encontro de Montaigne com os Tupinambás: “Não recua de medo perante os canibais, aqueles brasileiros que ele encontrou em Rouen, porque comeram homens. Diz, clara e calmamente, que considera essa atitude menos grave do que torturar homens vivos, atormentá-los e martirizá-los.”Lembrei-me de Montaigne, dos Tupinambás e de Stefan Zweig a propósito do que vamos sabendo que se terá passado numa esquadra do centro de Lisboa com um conjunto de agentes de segurança pública que, sem esquecer a presunção de inocência, se divertiram e mutuamente se exibiram a torturar homens vivos, a atormentá-los e a martirizá-los, com apuros de violência e desumanidade, num cobarde abuso de poder sobre seres humanos frágeis, desamparados e desprotegidos.Por incorrigível deformação profissional, dei por mim a imaginar um curto videoclip de imagens alternadas, e, aqui e ali, sobrepostas, ora das centenas ou milhares de pessoas que desfilam diariamente em frente a uma esquadra do centro de Lisboa, ora ilustrativas da descrição fria e factual do que acontecia ao mesmo tempo para lá das grades daquela esquadra. Uma montagem de planos rápidos que, como a tal imagem que vale mais do que mil palavras, nos revelasse impiedosamente um retrato actual, de corpo inteiro, do mundo em que todos nós continuamos a viver: dentro e fora das grades de uma esquadra de agentes de segurança pública.Não imagino que música poderia ajustar-se a uma tal montagem de imagens reais. Mas, pelo menos para o final, não resistiria a usar um trecho de cantos gregorianos em português para acompanhar a actuação do líder do maior partido da oposição, um católico praticante e, portanto, um suposto humanista: conseguiu não proferir uma frase, uma única frase!, de solidariedade e compaixão humana para com as vítimas da tortura e dos abusos, nem uma frase, uma única frase!, clara e firme, de condenação inequívoca da conduta dos agentes de segurança; preferiu, com a acutilância e a elevação que o caracterizam, criticar e atacar o actual ministro da Administração Interna, anunciando um dia de debate parlamentar para lhe cascar em directo e a cores. Um desenlace justo e coerente para a curta-metragem de horrores que se poderia realizar.No seu ensaio sobre Montaigne, Stefan Zweig pergunta: “Como guardar intacta a humanidade do nosso coração, no meio da barbárie?”Nem mais.



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