Surto de Ébola na R.D. Congo já terá provocado 105 mortos
Os profissionais de saúde no Leste da República Democrática do Congo estão numa corrida contra o tempo para travar um novo surto de Ébola no país, que alarmou as autoridades pela sua descoberta tardia e rápida propagação. Desde os primeiros relatos de sintomas, em Abril, já foram identificados 393 casos suspeitos de infecção e 105 vítimas mortais que se acredita terem sido causadas pela doença.No domingo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto como uma emergência de saúde pública de interesse internacional, devido ao elevado risco de propagação da doença para lá das fronteiras da República Democrática do Congo (RDC), após a confirmação de dois casos em Kampala, capital do vizinho Uganda. Um outro caso foi confirmado em Goma, capital provincial do Norte-Kivu, que os rebeldes do Movimento 23 de Março (M23) ocupam desde Janeiro do ano passado.O surto foi provocado pela espécie mais rara do vírus do Ébola, entre as quatro transmissíveis a humanos: a Bundibugyo, para a qual não existem vacinas ou medicamentos aprovados.Os centros de controlo e prevenção de doenças (CDC) da Europa e dos Estados Unidos informaram nesta segunda-feira que pretendem enviar especialistas à sede do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças, na Etiópia, para prestar apoio ao planeamento das operações no terreno, mas também para as regiões onde estão a ser registados casos de infecção na RDC e no Uganda.O CDC dos Estados Unidos anunciou ainda, no domingo, que estava a prestar apoio à retirada de um pequeno grupo de cidadãos norte-americanos directamente afectado pelo surto.A Organização Mundial da Saúde terá tido conhecimento da situação a 5 de Maio, acreditando-se, à data, que se tratava de uma doença desconhecida com elevada mortalidade em Mongbwalu, cidade mineira em Ituri, e reagiu enviando uma equipa de resposta rápida para a região. Devido a várias falhas no cumprimento do protocolo a seguir, o vírus acabou por só ser identificado a 14 de Maio. No dia seguinte, foi declarado o surto.Lievin Bangali, coordenador de saúde do Comité Internacional de Resgate no Congo, afirma que a redução do apoio financeiro ao país por doadores internacionais também comprometeu a atempada identificação deste surto.Segundo a representante da OMS na República Democrática do Congo, Anne Ancia, a agência das Nações Unidas para a saúde esgotou as suas reservas de equipamento de protecção na capital do país, Kinshasa, e está agora a preparar o envio de mais material por via aérea.Médico norte-americano infectadoJá nesta segunda-feira, as autoridades de saúde dos Estados Unidos confirmaram que um cidadão norte-americano, médico na República Democrática do Congo, está infectado com o vírus do Ébola. O risco para os Estados Unidos mantém-se baixo, asseguram.“A pessoa desenvolveu sintomas durante o fim-de-semana e obteve um resultado positivo no final do dia de domingo”, adiantou, em conferência de imprensa, Satish Pillai, que coordena a resposta do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA a surtos de Ébola.O CDC está a trabalhar em conjunto com o Departamento de Estado norte-americano para transferir o cidadão para a Alemanha, onde receberá tratamento médico. De acordo com Satish Pillai, outras seis pessoas que estiveram expostas ao vírus também estão a ser transportadas para território alemão.Uma delegação liderada pelo ministro da Saúde da RDC, Samuel Roger Kamba, chegou no domingo a Bunia, capital de Ituri, para instalar centros de tratamento temporários e dar apoio aos hospitais locais, que atingiram o limite da sua capacidade.“Esta não é uma doença misteriosa”, lembrou o ministro, em declarações à agência Reuters. Aos que têm sintomas, pediu que entrem em contacto com as autoridades sanitárias: “Para que possam receber cuidados e para que consigamos impedir a propagação da doença.”Jean Pierre Badombo, antigo autarca de Mongbwalu (Ituri), onde foram relatados os primeiros sintomas da doença, explicou que várias pessoas começaram a adoecer em Abril, após a chegada de um grande cortejo fúnebre com caixão aberto, proveniente de Bunia. “Depois disso, assistimos a uma série de mortes.”Entre 2018 e 2020, um surto da estirpe mais comum do Ébola, a Zaire, atingiu as províncias de Norte-Kivu e Ituri e foi o segundo mais mortífero de que há registo, provocando quase 2300 vítimas mortais. À data, a resposta à propagação da doença foi dificultada pela violência armada generalizada no Leste do Congo, que se mantém até hoje.



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