Brasil agora é parte de uma das confrarias gastronômicas mais antigas do mundo
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A gastronomia, quando observada sob a lente da cultura e da história, deixa de ser apenas um ato de consumo para se tornar um exercício de identidade e soberania. É sob este preceito que a Chaîne des Rôtisseurs, uma das mais prestigiadas confrarias do mundo, formalizou sua operação no Brasil.O movimento não é apenas uma expansão, mas a consolidação de uma ponte transatlântica que une a expertise técnica europeia à exuberância do repertório brasileiro. A rede une cerca de 80 países, dentre os quais está Portugal, onde a Chaîne aportou há 53 anos.Curiosamente, quem encabeça a consolidação no Brasil é uma franco-russa, a musicista Galina Besner, fã do trabalho de Heito Villa-Lobos, que se apaixonou pelo Brasil e pela potência dos ingredientes e da gastronomia verde-amarela. Para ela, a instalação do Bailliage Nacional é a resposta a uma vocação natural do país.“O raciocínio é o mesmo de nossos antecessores: um país de dimensões continentais, com tradições gastronômicas riquíssimas e ingredientes únicos, tem seu lugar legítimo no mapa da Chaîne”, afirma Galina.
Ravióli invertido de lagostim com caldo de capim-limão e cumaru
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O plano de ação é pragmático. A associação já concentra membros em Brasília e São Paulo, com olhos postos no Rio de Janeiro e em Salvador. Os pontos altos da agenda são os Chapitres, eventos que unem a liturgia da entronização à alta cozinha. “Cada evento é concebido como uma criação exclusiva, uma jornada de texturas e aromas em busca da harmonia perfeita”, reforça a dirigente.Exposição internacionalPara Galina, o benefício para o Brasil é claro: a exposição internacional de produtos que o mundo ainda começa a decifrar. “Membros internacionais já manifestaram grande interesse em nossos futuros eventos, ansiosos para descobrir a ‘música’ oculta em nomes como pirarucu, tambaqui, cupuaçu, buriti e pitanga, apreciando a arte no prato e a poesia da harmonização com grandes vinhos”, filosofa Galina, fazendo um paralelo com a música.O menu do jantar que marcou o início dos trabalhos da Chaîne no Brasil foi coordenado pelos chefs Benoit Lionet, Vitor Oliveira e Paulo Soares, todos vinculados à prestigiada Le Cordon Bleu de São Paulo.A primeira experiência foi uma bela amostra dos diálogos gatronômicos, mais marcantes entre Brasil e França. Um exemplo foram os gourgères, a versão francesa do nosso pão de queijo, recheados com tilápia defumada e servidos com gel de cajá, fruto muito popular especialmente no Nordeste do Brasil.Outro destaque foi o ravióli invertido de lagostim servido com caldo de capim-limão e cumaru, conhecida como fava tonka na Europa e considerada a “baunilha brasileira”.PadrinhoA chegada da irmandade ao Brasil conta com o apadrinhamento direto de Portugal. O articulador gastronômico Paulo Amado enfatiza que o objetivo central é o aprofundamento das relações por meio do que ele chama de “camaradagem”. “É bastante relevante poder juntar as pessoas em volta da boa gastronomia. Isso só pode significar um bom compromisso com a identidade e um reforço de uma ideia de cultura e de país.”
Paulo Amado é presidente da Chaîne des Rôtisseurs em Portugal
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Ao integrar a rede global da Chaîne, chefs e restaurantes brasileiros passam a ser reconhecidos como embaixadores oficiais de uma cultura que, finalmente, ocupa seu assento definitivo na mais alta mesa da diplomacia mundial.Segundo Amado, embora cada país tenha liberdade para criar seus próprios momentos, há uma tipicidade global. “Anualmente, há um capítulo nacional onde se entronizam os novos membros. Mas há celebrações regulares, como o Dia Mundial da Chaîne, todo 24 de abril, quando há celebrações em torno das mesas de todos os países membros”, frisa.Ele destaca que até as insígnias usadas pelos confrades contam uma história de hierarquia e paixão: “Há uma corrente maior que está por fora, a dos membros apaixonados pela gastronomia, e outra, a dos profissionais. Esta é uma confraria que representa essa conexão entre o público apaixonado e os profissionais do restaurante e do hotel, porque abrange todas as categorias: vinho, sala, donos de restaurante, cozinheiros e pasteleiros”, assinala.A gênese da Chaîne remonta a 1248, sob o reinado de Luís IX, mas sua alma reside na simbologia que carrega até hoje. Segundo Amado, pertencer à confraria exige a compreensão de sua herança. “Aquilo começa logo pela definição quando você olha. A bandeira tem lá implícito muita coisa: tem a chama, a grelha — porque, na origem, isto seria a confraria dos grelhadores de gansos do rei Luís IX —, a flor-de-lis e as cores azul, vermelho e dourado”, finaliza Amado.
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