E se não estivermos a ensinar jovens a viver? E se isto não for saúde mental?

E se não estivermos a ensinar jovens a viver? E se isto não for saúde mental?

E se não estivermos a ensinar jovens a viver? E se isto não for saúde mental?

Há uma palavra que ouvimos muitas vezes quando falamos de cansaço: resiliência. Ouvimo-la na escola, no trabalho, nas redes sociais, em discursos sobre saúde mental. Pedem-nos para sermos resilientes quando estamos cansados, ansiosos, sobrecarregados. Pedem-nos para respirar fundo, organizar melhor o tempo, insistir mais um pouco. E, quase sem darmos por isso, vamos aprendendo que sentir demasiado é um problema a corrigir e não um sinal a escutar.Enquanto estudante de Psicologia, há uma coisa que me inquieta nesta forma de falar sobre saúde mental: a facilidade com que transformámos sofrimento em falha individual. Quando um jovem está exausto, a pergunta costuma ser “como é que ele pode lidar melhor com isto?”. Raramente é “o que é que, à volta dele, o está a deixar assim?”. E essa diferença importa.Importa porque a forma como nomeamos o sofrimento muda a forma como cuidamos dele. Se olhamos para o mal-estar apenas como incapacidade individual, a resposta será sempre individual. Mais estratégias, mais ferramentas, mais controlo, mais adaptação. Mas se tivermos a honestidade de olhar com mais cuidado, percebemos que muitos dos sintomas que hoje se acumulam não nascem apenas dentro das pessoas. Nascem também das condições em que elas vivem. Há uma diferença entre fragilidade e exaustão. E nem sempre temos sabido distingui-las.

A saúde mental não pode ser apenas a arte de continuar a funcionar apesar de tudo. Não pode ser só a capacidade de aguentar mais um pouco sem cair. Cuidar da saúde mental também tem de significar criar condições onde viver não seja sinónimo de estar sempre a resistir.






Nem toda a ansiedade é desregulação. Nem todo o cansaço é má gestão emocional. Nem toda a dificuldade em aguentar mais um dia é falta de resiliência. Às vezes, é apenas o corpo a dizer que alguma coisa está errada. E talvez uma das coisas mais humanas que a Psicologia nos pode ensinar seja precisamente que nem todo o sofrimento deve ser imediatamente corrigido. Primeiro, deve ser compreendido. Transformámos o mal-estar numa falha pessoal, quando ele é, muitas vezes, uma resposta normal a condições anormais. É difícil pedir leveza a quem vive em esforço constante. É difícil falar de regulação emocional a quem vive sem descanso. É difícil pedir equilíbrio a uma geração que cresceu entre a pressão para ter futuro e o medo constante de não o conseguir sustentar.Muitos jovens não estão “desorganizados”. Estão cansados. Cansados de viver em antecipação, em desempenho, em adaptação permanente. Cansados de sentir que têm de estar sempre bem, sempre disponíveis, sempre capazes. E, talvez, o mais preocupante seja a forma como nos habituámos a isto. Habituámo-nos a jovens ansiosos e chamámos-lhes ambiciosos. Habituámo-nos a jovens exaustos e chamámos-lhes responsáveis. Habituámo-nos a jovens em sofrimento e chamámos-lhes resilientes. Mas dar um nome bonito ao sofrimento não o torna mais leve.A saúde mental não pode ser apenas a arte de continuar a funcionar apesar de tudo. Não pode ser só a capacidade de aguentar mais um pouco sem cair. Isso não é, necessariamente, bem-estar. Muito menos ter saúde mental. Cuidar da saúde mental também tem de significar criar condições onde viver não seja sinónimo de estar sempre a resistir.Talvez precisemos de falar menos sobre como tornar os jovens mais fortes e mais sobre como tornar a vida menos dura. Talvez precisemos de escutar o cansaço com mais seriedade, a ansiedade com mais cuidado e o sofrimento com menos pressa de o transformar em lição. Porque nem tudo o que dói precisa de ser romantizado. E nem tudo o que custa deve ser normalizado.Às vezes, o mais saudável não é aguentar melhor. É reconhecer, com honestidade e compaixão, que há formas de viver que não deviam exigir tanta força para serem vividas. Deixo aqui esta reflexão com perguntas que talvez precisemos de começar a fazer com mais seriedade. O que estamos a normalizar quando falamos de resiliência? E que tipo de vida estamos, afinal, a ensinar os jovens a aceitar?

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