Brasileiras contam como conciliar maternidade e empreendedorismo em Portugal
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Elas não sabem o que vão ganhar de presente neste domingo (10/05), quando se comemora o Dia das Mães no Brasil (em Portugal, a data é celebrada no primeiro domingo de maio). Algumas juram que nem fazem questão de receber qualquer mimo. Para um grupo de mães brasileiras, que vivem em Portugal, o mais importante já foi conquistado: ter mais tempo para criar os filhos. De que maneira? Investindo no empreendedorismo.Além da conquista financeira, a personal trainer Bianca Bastos, a advogada Maysa Guimarães Leite e a empresária Patrícia Lemos afirmam que encontraram realização profissional e um jeito de ficar mais perto da prole — ou dar um futuro promissor para eles — sendo donas do próprio nariz. No time, há também a empresária venezuelana Cristina Pereira.Advogada especializada em direito público, a sergipana Maysa Guimarães Leite, 37 anos, já trabalhou em uma empresa de imigração e em escritórios de advocacia em Lisboa. Em Portugal há sete anos e mãe de Caetano, de apenas 1 aninho, ela agora planeja um voo solo na sua carreira com o projeto Direito de Toda Gente, voltado à promoção da cidadania e à integração de imigrantes.“Quero que eles saibam quais são os seus direitos e os seus deveres. E de forma simples. Acho que uma das coisas que afasta muito o imigrante é o ‘juridiquês’. Algumas pessoas não entendem vários termos”, avalia. “Esse tipo de iniciativa dificilmente encontraria espaço nos modelos mais tradicionais de escritórios, que muitas vezes estão limitados a estruturas e objetivos mais rígidos. Empreender, portanto, também é abrir caminho para inovar e impactar realidades”, acrescenta.
A personal trainer carioca Bianca Bastos é mãe de Matias, de 3 anos
Arquivo Pessoal
Por ter um bebê em casa, ela diz que o projeto ainda está engatinhando, mas calcula que será lançado no segundo semestre deste ano ou no início de 2027. “Como o meu neném ainda é muito pequeno, as coisas têm sido um pouco mais lentas. Mas a convivência com o Caetano também me ensina e influencia diretamente a forma como penso e atuo profissionalmente”, enfatiza.Sobre as dificuldades encontradas na hora de empreender, Maysa ensina: “É um caminho intenso. Por isso, é importante sentir se essa escolha faz sentido para você. E, ao longo do processo, não é preciso caminhar sozinha. Trocar com outras mulheres, especialmente mães, faz toda a diferença. Há uma empatia que não precisa ser explicada, e isso fortalece e abre portas”, afirma.AmadurecimentoA personal trainer e professora autônoma Bianca Bastos, 40, com especialização em pilates com aparelhos, veio para Portugal há oito anos. Mãe de Matias, 3, hoje a carioca garante que o nascimento de seu filho foi a sua maior inspiração na hora de virar sua própria chefe.“Mesmo antes de ser mãe, eu nunca quis dar aulas em academias. Sempre preferi lidar diretamente com o cliente. E como trabalho muito com mulheres grávidas e mulheres no pós-parto, para elas também é difícil conciliar o treino com a rotina”, diz. “Depois que o Matias nasceu, para mim, ser empreendedora fez mais sentido ainda. Eu amadureci mais essa ideia.”Ela frisa que, ao viver na pele os percalços (e as delícias) da maternidade, passou a se conectar de outra forma com as alunas que também são mamães. “A maior conexão que eu tenho com as minhas clientes é que passo pelas mesmas coisas que elas. Outro dia, propus um desafio para uma ficar estimulando a outra a fazer uma caminhada, por exemplo. Mas tinha gente que não conseguia porque o filho ficou doente, com febre. Cada semana acontecia algo com uma delas”, ressalta.
A venezuelana Cristina Pereira e os filhos Diego, de 1 ano e 8 meses, e Eva, de 4: para ela, tempo com os filhos é algo valioso
Arquivo Pessoal
Bianca acrescenta: “Inclusive, comigo também. Nesse dia, fiz um vídeo e falei para elas, ‘gente, hoje estou muito cansada, a semana foi puxada, meu cachorro ficou doente’. Fiz questão de mostrar isso porque, às vezes, a cobrança é alta, pintam aquela vida ideal, que todo mundo treina e trabalha todo dia. Não é assim. Independentemente de ser mãe ou não”, destaca.A personal trainer, que dá aulas na casa dos clientes ou em parques em Cascais, diz que a maior dificuldade em gerir o seu serviço é montar uma cartela ampla de alunos. “O maior desafio é organizar, conquistar essa agenda, para poder estar mais presente no dia a dia do meu filho e participar dos momentos importantes da vida dele. E não é só sobre quantidade de tempo, é sobre qualidade. Estar de verdade.”Tempo valiosoEm Portugal desde 2017, a empresária venezuelana Cristina Pereira, 35, tem dois filhos: Diego, de 1 ano e 8 meses, e Eva, de 4 anos. Formada em seu país em estudos liberais, área que reúne economia, filosofia e história política, especializou-se, depois, em marketing digital, setor em que viu uma oportunidade de ter seu próprio negócio. Ela conta que já saiu da Venezuela com o objetivo de ser uma empreendedora.“Pelo menos na minha universidade, fala-se muito de empreendedorismo. Mas, antes de vir para Portugal, eu tentei criar uma empresa na Venezuela, mas era uma coisa mais relacionada à arte, ao design. Só que, naquela altura, o país não estava realmente preparado para comprar coisas que não fossem básicas. As pessoas precisavam pagar aluguel, comprar comida. Então, chegou um momento em que pensei na minha independência financeira e na minha idade, não queria viver com os meus pais até os 30 anos”, frisa.Foi quando Cristina resolveu desembarcar em Portugal, onde começou a trabalhar na área de restaurantes. Prática, ela já tinha. E bom patrão também. “Meu pai é português e tem restaurante na Venezuela e em Lisboa. Então, já sabia preparar cafés, atender à clientela”, relembra ela, que passou a administrar as redes sociais do estabelecimento.Depois de assessorar empresas, viu que tinha experiência suficiente e criou, em 2019, a agência de marketing digital Rollout Studios, especializada em gestão de anúncios publicitários, criação de conteúdo, lançamentos e estratégias de comunicação para marcas de diferentes dimensões.“Eu dedicava muitas horas do meu dia à agência. Trabalhava até de madrugada”, revela. Porém, com a chegada de Eva, o ritmo passou a ser outro. E a certeza de se lançar no empreendedorismo também. “Quando tive a primeira filha, percebi que continuo gostando muito de trabalhar. Mas, com a minha empresa, tenho mais liberdade. Se quero passar uma tarde ou passar o dia com o meu filho, porque ele está doente, eu posso fazer isso e sem justificar nada a ninguém. Isso é muito valioso”, sublinha.
A carioca Patrícia Lemos com os filhos gêmeos João Pedro e Valentina: resiliência
Divulgação
ResiliênciaMais uma empreendedora brasileira, Patrícia Lemos, 54 anos, se mudou para Portugal em 2017, já pensando no futuro dos filhos gêmeos, Valentina e João Pedro, então com 5 anos. E foram eles que inspiraram a empresária carioca a lançar, recentemente, o projeto Vou Jogar na Europa, que visa integrar a vivência no exterior com a formação desportiva. A primeira turma será em julho, na Espanha, onde Valentina joga vôlei e João Pedro, futebol.À frente há quase dez anos do Vou Mudar para Portugal, projeto de apoio a famílias que desejam viver deste lado do Atlântico, ela fala sobre a tarefa de conciliar a maternidade com o empreendedorismo. “Nós, mães, desenvolvemos uma característica que é muito importante para o empreendedorismo: a resiliência. Aprendemos a recomeçar. Errou aqui, recomeça. Então, aprendemos a recomeçar quantas vezes forem necessárias. Aprendemos a lidar com imprevistos, porque todo dia tem um na vida de um filho, e isso também acontece na vida empresarial”, salienta.E finaliza: “Hoje, os meus filhos têm 14 anos. Eles, sem dúvida nenhuma, são a minha maior fonte de inspiração, é por eles e também com eles que eu busco evoluir e construir algo com propósito. Eles são uma grande fonte de inspiração e eu afirmo categoricamente: ser mãe e empreender não são papéis opostos, são papéis que se complementam.”
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