Cartas ao director
Um caso de polícia ou de Parlamento?O caso da violência policial em esquadras da PSP em Lisboa é particularmente grave, porque parece envolver não apenas um agente isolado, mas um grupo. Quando a violência é partilhada, então parece que estamos perante uma cultura que não é a do nosso tempo, nem a da nossa sociedade. Do que se sabe, terão sido partilhados nas redes sociais vídeos de maus tratos das vítimas, a mesma banalização do ódio e da violência que tem sido repetidamente assinalada entre os jovens, frequentemente associada a partilhas de mensagens nas redes sociais, que os próprios algoritmos das redes tendem a amplificar. Quando o poder político pactua com a existência de redes sociais sem regulação, em que, ao contrário de todos os outros espaços públicos, se pode actuar a coberto do anonimato, o que podíamos esperar?Quando o Ministério Público assiste, mudo e quedo, a vídeos falsamente manipulados por um dirigente partidário incitando ao ódio contra os imigrantes, poderemos pensar que os nossos valores e padrões culturais não estão em sério risco? Se os deputados têm medo dos oligarcas das redes, que enriquecem tanto mais quanto maior for a barafunda e mais cliques houver, e dum Ministério Público sem escrutínio que os pode tornar arguidos de sabe-se lá o quê, que fim esperamos para esta democracia? Quem semeia ventos, colhe tempestades.José Cavalheiro, MatosinhosPortugal seria melhor se fosse diáspora?Somos reconhecidos como exímios mediadores de conflitos internacionais, mas temos dúvidas sobre o que queremos para nós próprios aqui em Portugal, é esta uma das lições que o sociólogo Elísio Macamo nos oferece no seu ensaio no PÚBLICO de quinta-feira (“Fragilidade narrativa”), ele que nos vai analisando a partir da Suíça. É uma visão que nos recorda “o país da não inscrição”, diagnóstico feito há duas décadas por José Gil no livro Portugal, Hoje: o Medo de Existir. Macamo expande o conceito de Gil afirmando que os portugueses se dividem em dois grupos: o de cidadãos hesitantes sobre a sua identidade e objectivos enquanto habitantes do país, e o de negociadores eficazes quando trabalham no estrangeiro. Ou seja: somos abúlicos em casa e hiperactivos no estrangeiro. Seremos uma nação cujas melhores qualidades só se manifestam quando estamos para além das nossas fronteiras? Como enxertar em Portugal as superiores qualidades que os políticos portugueses só exprimem no estrangeiro? Seremos um povo fadado para a diáspora e, sendo assim, melhor será emigrarmos? Obrigado ao Elísio Macamo por nos fazer pensar!Artur Águas, PortoO “nosso hemisfério”?A 7 de Maio, Washington voltou a apertar o cerco contra Cuba. Marco Rubio declarou que os EUA não permanecerão passivos enquanto o Governo cubano “ameaça a nossa segurança nacional no nosso hemisfério”. A formulação merece atenção: “O nosso hemisfério.” Eis a velha linguagem imperial, pronunciada hoje com total naturalidade.Há mais de seis décadas que Cuba vive sob bloqueio económico, financeiro e energético imposto pela maior potência do planeta, mas, ainda assim, continua a ser apresentada como ameaça intolerável. A desproporção é evidente: um pequeno país insular, sujeito a sanções permanentes, tratado como perigo estratégico por um império militar com centenas de bases espalhadas pelo mundo. A contradição não é nova: Umberto Eco observou, em Ur-Fascismo, que a propaganda fascista retrata o inimigo como simultaneamente poderoso e débil, ou seja, forte o suficiente para justificar medo e mobilização, mas fraco o suficiente para ser esmagado pela “vontade nacional”.Independentemente da opinião sobre o regime cubano, importa reconhecer o essencial: o bloqueio não visa “democracia” nem “direitos humanos”. Visa, sim, punir um país que recusou a subordinação a Washington, e fazer dele um exemplo dissuasor para os restantes. O bloqueio não é uma abstracção diplomática: tem consequências humanas concretas para as vidas de milhões de cubanos.Talvez esteja na hora de a Europa olhar para este discurso com o mesmo espírito crítico que afirma defender noutras partes do mundo.Manuel Mendes, LisboaEscafedeu-se o pacote laboralForam precisos nove meses para se tornar num nado-morto, apesar de todas as inúteis lengalengas. Agora, as exéquias, assaz acutilantes, não lacrimejantes, vão continuar na Assembleia da República. Este problema, eivado das piores intenções, já fede. Fede tanto que deve começar do zero. O mundo patronal, tal qual um alegado bando de abutres, tem tido o beneplácito do sombrio Ministério do Trabalho: o guarda-chuva de toda esta trapalhada.José Amaral, Vila Nova de Gaia



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