Na ONU, Guterres Pede Assento Africano e Alerta Superpotências
Num tom vincado de despedida e perante delegações de dezenas de nações reunidas em Nova Iorque, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu a 81ª Assembleia Geral da organização com um dos discursos mais contundentes do seu mandato. Prestes a concluir quase uma década à frente do maior organismo multilateral do planeta, o líder cessante aproveitou a sua última intervenção inaugural para fazer um diagnóstico desassombrado das divisões internacionais e exigir reformas imediatas na governança global.
O Poder das Superpotências Tem Limites
Durante a sua alocução, Guterres recusou o conformismo diplomático e dirigiu uma mensagem frontal às maiores potências mundiais, sublinhando que a ordem geopolítica está a transitar aceleradamente para a multipolaridade. O dirigente sublinhou que a influência unilateral já não consegue ditar os rumos da estabilidade internacional de forma sustentável.
“Construir um futuro em rede começa com o reconhecimento, especialmente por parte das superpotências, de que o seu poder não é assim tão super. O seu poder tem limites”, advertiu no plenário da ONU.
Para o diplomata, os acontecimentos internacionais recentes demonstram com clareza que o músculo bélico e a força financeira isolada não chegam para gerir crises humanitárias e conflitos que se arrastam. “O poder militar sozinho não pode garantir a paz. O poder económico sozinho não pode assegurar a estabilidade”, salientou, defendendo que apenas regras partilhadas e compromissos genuínos podem evitar um fosso crescente entre blocos rivais.
Reforma Histórica: África no Conselho de Segurança
Entre os pontos mais marcantes da sua intervenção esteve o apelo veemente à democratização do Conselho de Segurança da ONU. O secretário-geral declarou categoricamente que a estrutura do órgão deliberativo máximo, desenhada no rescaldo de 1945, se tornou obsoleta e injusta face à demografia e ao peso político dos continentes no século XXI.
- Falta de representatividade: ausência crónica de membros permanentes do continente africano no centro decisório de paz e segurança globais.
- Injustiça histórica: necessidade urgente de atribuir a África uma presença definitiva para restaurar a credibilidade das decisões internacionais.
- Multipolaridade em rede: criação de equilíbrios que evitem a sub-representação das economias e populações do Sul Global.
“Um Conselho de Segurança do século XXI sem assentos permanentes para África é injusto e indefensável. Isto tem de mudar”, frisou o dirigente, arrancando aplausos expressivos de diversas bancadas no recinto.
Tecnologia, Desigualdade e os Próximos Desafios
Para além dos conflitos territoriais e das crises humanitárias, António Guterres elencou as frentes críticas que testarão a humanidade nos próximos anos: as alterações climáticas extremas, as disparidades de rendimento e a rápida expansão da inteligência artificial. Sobre a evolução tecnológica, lançou um aviso contra a delegação cega do controlo humano a processos automatizados, apelando a parâmetros éticos internacionais vinculativos.
Ao encerrar o seu último pronunciamento oficial de abertura da Assembleia Geral, Guterres recordou que as instituições internacionais só manterão a sua utilidade histórica se tiverem a coragem de evoluir ao ritmo do mundo real, privilegiando a concertação coletiva em vez da imposição pela força.
