SOCIEDADE

Moçambique debate expansão de bancos de leite humano

Moçambique debate expansão de bancos de leite humano

Especialistas em saúde pública, médicos neonatologistas, gestores hospitalares e parceiros da sociedade civil reuniram-se recentemente em Maputo com uma missão urgente: traçar as diretrizes para fortalecer e descentralizar a rede de bancos de leite humano em Moçambique. O encontro, promovido em formato de mesa-redonda multissetorial, colocou em debate a operacionalização, sustentabilidade financeira e ampliação de uma infraestrutura vital para a sobrevivência de recém-nascidos prematuros e clinicamente vulneráveis.

Um recurso que salva vidas no início da jornada

O leite materno pasteurizado constitui um elemento essencial para a sobrevida de recém-nascidos com baixo peso, doentes ou que enfrentam complicações nos primeiros dias após o parto. Para além das propriedades nutricionais insubstituíveis, o produto atua como uma barreira protetora contra infeções hospitalares graves e distúrbios gastrintestinais típicos da prematuridade. Nas unidades de cuidados intensivos, o acesso ao leite doado pode significar a diferença entre a rápida recuperação e sequelas permanentes decorrentes de carências nutricionais severas.

Atualmente, o país conta com um único Banco de Leite Humano em funcionamento, sedeado no Hospital Central de Maputo (HCM). Em atividade contínua desde 2018, a unidade tem sido a linha de abastecimento indispensável para a Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do maior centro hospitalar do território moçambicano. No entanto, a capacidade atual é insuficiente para responder à procura crescente da rede pública de cuidados materno-infantis.

A meta de alcançar novos hospitais de referência

Durante as discussões, os participantes apontaram a necessidade de levar o modelo para além do Hospital Central de Maputo. O plano prioritário prevê dotar os serviços neonatais de outros estabelecimentos na área da Grande Maputo — com foco imediato nos Hospitais Gerais de Mavalane e José Macamo — de equipamentos e protocolos adequados de conservação e distribuição. A iniciativa conta com apoio do projeto MOMENTUM Country and Global Leadership (MCGL), além da colaboração técnica consolidada em parcerias internacionais de saúde neonatal.

Para assegurar que o plano não se limite a boas intenções, os especialistas enfatizaram três pilares estruturantes:

  • Infraestrutura e controlo de qualidade: garantir equipamentos de refrigeração estáveis, autoclaves e processos laboratoriais rigorosos para pasteurização e análise biológica do leite doado;
  • Capacitação técnica permanente: treinar equipas de enfermagem e pediatria na gestão da cadeia de frio e no manuseio seguro dos frascos;
  • Sensibilização social: desmistificar tabus comunitários em torno da doação de leite humano e envolver as famílias no incentivo às mães lactantes para a doação altruísta.

“O acesso seguro e equitativo ao leite doado não é um luxo hospitalar, mas sim um direito à saúde neonatal para quem nasce sob condições de maior fragilidade.”

Desafios logísticos e envolvimento das comunidades

A expansão da rede enfrenta obstáculos práticos, como a oscilação no fornecimento de eletricidade em unidades periféricas e a exigência de redes de transporte refrigerado para transferir excedentes de forma segura. Paralelamente, especialistas destacaram que o sucesso de qualquer banco de leite reside na confiança pública. Estimular mães lactantes a doar o excedente de forma voluntária exige campanhas contínuas de esclarecimento nas maternidades e consultas pré-natais.

Com a mobilização entre poder público, profissionais clínicos e organismos de cooperação, Moçambique dá um passo relevante para reduzir a mortalidade neonatal e assegurar que as crianças nascidas em condições mais adversas encontrem na solidariedade materna um porto seguro para o seu desenvolvimento.

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