A propósito dos Paulistas, Lisboa deixa morrer o que não consegue vender
Existe na Calçada do Combro, em Lisboa, ou melhor, ergue-se por enquanto, um conjunto monumental que lá está há bem mais de três séculos.Quem por aí passar poderá constatar a colossal mole do convento dos Paulistas da Serra de Ossa que vence o íngreme desnível agarrando-se à encosta num esforço prodigioso de engenho e arquitectura.Qualquer cidade, capital da Europa, veria neste monumental e secular testemunho da capacidade humana de construir e habitar os espaços um sinal da sua singular passagem pela história.Qualquer cidade, capital da Europa, engendraria formas e maneiras de o proteger das agruras do tempo e da incúria dos homens.Em qualquer lado a presença deste tipo de edificado seria valorizada, dada a conhecer, estudada, entregue de novo à cidade.
Mas, para seu e nosso infortúnio, o convento dos Paulistas ergue-se em Lisboa, a capital da negligência patrimonial.Os valores que levaram à sua classificação são públicos, um dos melhores conjuntos de talha joanina de Lisboa, um dos órgãos históricos mais extraordinários do país, um belíssimo cadeiral barroco no coro alto, um conjunto de talas in situ, o maior e melhor tecto estucado de Lisboa pela mão de Grossi e da sua equipa, portaria, dependências conventuais, onde se inclui uma biblioteca barroca, fora a impressionante imagem que a igreja e o convento imprimem na Calçada do Combro.Várias têm sido as tentativas de trazer a CML e a tutela (Estado, MF/DGTF/Estamo e MC/PC-IP) para a causa do restauro e valorização desse monumento nacional ímpar, mesmo sabendo que, pelo facto de ser o Estado o proprietário, a CML não é obrigada a intervir, mas o Estado, o Governo, sim.Mas nada impede que a CML opte por se constituir como parte interessada e agregadora de vontades, recorrendo ao seu peso institucional de autarquia da capital do país, pressionando o Estado a sair do seu proverbial imobilismo e, com a couraçada sensibilidade que é a sua em relação às coisas do património, crie uma plataforma urgente que viabilize o restauro dos Paulistas.Aliás, já o fez há cerca de 20 anos, então no âmbito do projecto “Valorização dos monumentos históricos de Lisboa”. Nessa altura, a CML fez diversas intervenções na recuperação da capela-mor e do transepto da igreja, em conjunto com a então DGEMN. Pelo que nada impede que o volte e deva fazer hoje.O diagnóstico está feito e não será exagerado dizer-se que pior só quando entrar em derrocada completa.As infiltrações de água já levaram ao destacamento de importantes secções do tecto estucado, o órgão, as talhas, as telas e os frescos estão a um passo de se tornarem irrecuperáveis. A própria segurança estrutural das duas torres sineiras deve ser reforçada e garantida, A ruína galopa a passos largos. E quando os Paulistas caírem, quem será o responsável por nada ter sido feito para evitar semelhante cenário?A verdade é esta: o actual executivo camarário, na sua frenética actividade, olha para o património de Lisboa como “um boi para um palácio”, ou melhor, como um broker olha para o sobe e desce do valor das acções na bolsa.Lisboa é, assim, o palco onde se desenrola a majestade do mercado. O mercado dita as regras e o burgo que aguente as estocadas, mais ou menos fatais, que o dito lhe inflige.Ninguém será contra os vários e multifacetados investimentos de que a cidade é, ao mesmo tempo, cobiçada e vítima.Muito menos alguém desprezará a onda de reabilitações que tem invadido os bairros de Lisboa, ainda que fachadismo, na grande maioria dos casos.Mas um outro cuidado e uma outra sofisticação seriam necessários para que à propalada actividade estivesse associada a preocupação pela qualidade do espaço que nos envolve, pois é inegável que o espaço público em Lisboa se encontra num estado deplorável de degradação e bandalheira. Que vai do estado do património, aos jardins e ruas.Exemplos não faltam. Às justificadas observações dos hotéis da Avenida da Liberdade que se queixavam, e com razão, do desleixo em que a artéria mais cara de Lisboa se encontra, placas ajardinadas destruídas, coberto arbóreo maltratado, mobiliário urbano de fraca qualidade estética, dezenas de rutilantes ecrãs publicitários, tapete de asfalto esburacado, as altas personalidades que ocupam os lugares de governo da cidade, no seu proverbial desfasamento com a realidade, mostraram-se espantadas, como se essas queixas dissessem respeito a outra galáxia.Basta passar pela Baixa para comprovar que assim é. A zona que seria, outra vez, alvo de uma candidatura UNESCO, agora, com os “Novos Tempos” que, evidentemente são sempre muito “doers”. Pormenores é o que nós gostaríamos de saber sobre essa funesta candidatura sempre anunciada e sempre adiada e cada vez com menos argumentos factuais para a sustentar, dadas as consecutivas alterações descaracterizadoras por que o edificado tem passado e continua a passar. Um mimo de pensamento estratégico e de vontade de fazer. Como diz o povo, falar é fácil.O mesmo é válido para a Almirante Reis, e para a chaga urbanística que é o Martim Moniz, entre discussões e cafés virtuais, concursos internacionais para o novo e moderno jardim dessa praça, mas em que nada foi feito. Os anos passam e o espaço afunda-se numa degradação irremediável.
Para esta vereação de turno, o património da cidade é um empecilho, uma coisa sensaborona, pouco digitalizável e nada unicorniana
Seria bom que se aliasse à duradoura paixão por unicórnios e nómadas digitais um cuidado acrescido na gestão do espaço público.O desastroso caso dos Paulistas é bem o sinal de uma gestão imediatista, superficial, incoerente, errática da cidade em que vivemos, tal como os casos do Palácio Marim-Olhão e do Palácio Pombal, estes dois com a agravante de serem propriedade municipal.Para esta vereação de turno, o património da cidade é um empecilho, uma coisa sensaborona, pouco digitalizável e nada unicorniana.E, no entanto, a Lei de Bases do Património, no seu artigo 3.º, não dá margem para interpretações enviesadas: “O conhecimento, protecção, valorização e divulgação do património cultural constituem um dever do Estado, das Regiões Autónomas e das autarquias locais.”Mais claro é impossível.Em jeito de adenda, refira-se que a Assembleia da República aprovou no mês passado o Projecto de Resolução n.º 688 que recomenda ao Governo que promova a urgente conservação e reabilitação dos Paulistas, apresentando um plano de obras no espaço de seis meses. A ver vamos.



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