O problema de Portugal é um problema de azeite

O problema de Portugal é um problema de azeite

O problema de Portugal é um problema de azeite

A Chama da Pátria não é uma mera fonte de luz. É um símbolo vivo da alma nacional, da memória dos que deram a vida pela Nação, da continuidade histórica de um povo. A sua guarda por escolta militar atesta precisamente esta dimensão sagrada e solene. A chama acesa como símbolo da alma nacional e guardada por escolta militar é hoje elétrica. Temos militares que escoltam uma chama de alma a pilhas, porque falta o azeite. Onde está o fogo de uma nação que se substitui por uma micro chama elétrica? Onde estão as nossas oliveiras? Os tesouros da terra nacional? O mundo rural, os olivais, os lagares?Esta substituição da chama que nos segura tem muito de simbólico. O problema de Portugal é um problema de azeite.Escrevo enquanto nutricionista e defensora da identidade alimentar, da relação entre alimentação e cultura, e esta imagem da chama elétrica no Mosteiro da Batalha persegue-me como metáfora involuntária do que temos feito ao nosso património alimentar.Portugal foi, durante séculos, uma nação de azeite. O olival moldou a paisagem do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Interior. O lagar era instituição comunitária, lugar de trabalho e de encontro. O azeite não era apenas gordura culinária — era luz nas candeias, era unção religiosa, era moeda de troca, era identidade. A oliveira, com a sua longevidade e resiliência, era símbolo vivo da permanência portuguesa.O que dizem os números de hoje? Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística, Portugal produziu cerca de 180 mil toneladas de azeite na campanha de 2023/2024 — um valor que nos coloca entre os maiores produtores mundiais, é certo, mas que esconde uma realidade mais complexa. Grande parte desta produção concentra-se em explorações intensivas e superintensivas no Alentejo, muitas delas detidas por capital estrangeiro, orientadas quase exclusivamente para exportação. O olival tradicional, aquele que desenhava as encostas do interior e sustentava comunidades rurais, continua subaproveitado. Estima-se que cerca de 40% do olival português seja tradicional, segundo dados do CEPAAL – Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo -,​ e em risco de abandono.Entretanto, o preço do azeite para o consumidor português continua alto, como indica o Observatório de Preços Agroalimentar, tornando-se um produto de luxo para muitas famílias. O paradoxo é gritante: somos produtores, mas o azeite tornou-se inacessível na mesa de quem o deveria consumir diariamente.Do ponto de vista nutricional, o azeite virgem extra é um dos pilares da dieta mediterrânica — reconhecida pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade e consistentemente associada pela evidência científica à redução do risco cardiovascular, à longevidade e à saúde metabólica. Os seus compostos fenólicos, como o oleocantal e a oleuropeína, têm propriedades anti-inflamatórias documentadas. Substituí-lo por óleos refinados ou gorduras de menor qualidade não é apenas uma perda gastronómica — é um retrocesso em saúde pública.


A Chama da Pátria no Túmulo do Soldado Desconhecido na Sala do Capitulo do Mosteiro da Batalha
Pedro Pedroso

O simbólico e o concretoRegresso à chama do Mosteiro da Batalha. Aquela luz elétrica, alimentada a pilhas, é uma solução mais económica e prática. Mas há algo de profundamente desconfortável em ver o símbolo da Alma Nacional reduzido a uma conveniência. A chama tradicional, alimentada a azeite, exigia cuidado contínuo — alguém que a vigiasse, que a alimentasse, que garantisse a sua permanência. O fogo dependia do produtor, o símbolo ardia da terra, o setor primário sustentava. Era um gesto de atenção e de compromisso, gestos que espelham a própria natureza do dever e da memória colectiva. Não será isto, precisamente, o que falta à nossa relação com a terra? Com o mundo rural? Com as culturas que nos definem?O olival tradicional exige tempo, mão-de-obra, conhecimento transmitido entre gerações. Não compete em eficiência com as plantações superintensivas. Mas produz azeites de qualidade singular que sustentam biodiversidade, fixam populações no interior, mantêm viva uma paisagem e uma cultura. Abandoná-lo é abandonar uma parte de Portugal. Um parte de nós.Não proponho um regresso romântico ao passado. Proponho que olhemos para o azeite — e para a oliveira — como questão estratégica nacional. Que os apoios públicos à agricultura valorizem o olival tradicional e não apenas a produtividade intensiva. Que se criem mecanismos para que o azeite português de qualidade chegue à mesa portuguesa a preços acessíveis. Que a literacia alimentar recupere o lugar central do azeite na nossa cozinha. Que os lagares comunitários sejam preservados como património vivo.A Chama da Pátria não pode ser a pilhas. E a solução não é técnica — é cultural, económica, política. Uma chama de elevado valor simbólico alimentada por azeite português, proveniente de olivais nacionais, numa articulação entre a memória histórica, o valor simbólico e sagrado, e a economia rural que tanto carece de apoio.O problema de Portugal é um problema de azeite.Plantemos oliveiras.Ana Helena Pinto é nutricionista, fundadora da Nutrition for Happiness. A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico​

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