A outra banda sonora de Portugal
No 10 de Junho, celebramos Portugal, Camões, a língua portuguesa, as comunidades e, pelo meio, ouvimos discursos sobre identidade nacional. Confesso que quando penso no meu país, muitas vezes não me lembro apenas de Camões. Lembro-me de um carro parado à porta de um café, algures num bairro periférico, vidros meio abertos, graves a fazer tremer ligeiramente a chapa e uma voz a rimar sobre uma vida que dificilmente caberia num discurso presidencial.Receio que possa soar a heresia, mas suspeito que parte da história do país das últimas décadas não foi escrita apenas em livros, jornais ou relatórios estatísticos: foi rimada. Há um Portugal que raramente aparece nos retratos oficiais: o dos subúrbios, dos bairros esquecidos, das viagens intermináveis de transportes públicos, das pessoas que crescem entre dificuldades, pequenos crimes, violência, desemprego, sonhos adiados e uma persistente sensação de invisibilidade.Goste-se ou não, foi o hip hop tuga quem muitas vezes decidiu contar essas histórias. Há quem o considere um género menor. Música de “gunas/mitras”, muitas vezes considerada agressiva, demasiado crua, pouco elegante para entrar nos salões respeitáveis da cultura nacional. Como se uma orquestra purificasse aquilo que o bairro contaminava, como se o fado, a música clássica ou a chamada “grande cultura” tivessem currículo, enquanto o rap tivesse cadastro.
Acho curioso celebrarmos tanto a língua portuguesa enquanto ignoramos algumas das suas formas mais criativas. A nossa língua vive também no improviso, no erro, no calão, nos regionalismos, nos sotaques, nos cruzamentos improváveis entre português, crioulo e tudo resto. Vive onde as pessoas vivem e o hip hop tem sido umas das formas mais poderosas de reinventar o português. A rima obriga a conhecer o peso das sílabas, a respiração da frase, o ritmo interno das palavras, a elasticidade do sentido. Um bom rapper não usa a língua apenas para comunicar: desmonta-a, dobra-a, estica-a, torce-a, volta a montá-la e, no fim, ainda a faz dançar.Sam The Kid é talvez um dos exemplos mais evidentes dessa relação quase artesanal com a palavra. Há nele uma espécie de oficina da língua, não apenas no modo como escreve, mas também no modo como pensa o português como matéria viva. E é curioso, talvez até poeticamente justo, que alguém vindo do hip hop tenha acabado a conversar com Marco Neves, professor e investigador da língua portuguesa, num projecto como o “Assim ou Assado”. Visto de fora, até podia parecer improvável: um rapper e um especialista em línguas a falarem de gramática, mitos linguísticos, erros, preconceitos e curiosidades. É apenas improvável a quem ainda acredita que a língua mora exclusivamente nas gramáticas e nos manuais escolares. A língua também mora na rua e o hip hop criou, ao longo dos anos, uma espécie de dicionário da rua. Nesse dicionário, Portugal não aparece penteado, aparece como é.Talvez por isso muitas músicas tenham ensinado mais do que algumas aulas. Muitos jovens talvez tenham reflectido pela primeira vez sobre ganância, confiança ou respeito a ouvir Recado, de Sam The Kid; outros terão percebido os riscos da sida e de outras IST através de Roleta Russa, de Valete, de uma forma provavelmente mais impactante do que algumas aulas de biologia dadas à pressa.As cartas de amor de Fernando Pessoa continuam a ser “ridículas”, como devem ser todas as cartas de amor, mas hoje talvez também possam ser escritas com uma batida por baixo, com uma voz rouca ao microfone, com uma rima inesperada a cortar a cerimónia. Não para transformar Pessoa num rapper de ocasião (seria fácil demais, e talvez um bocadinho pateta), mas para lembrar que a emoção também muda de suporte. Antes havia cartas, depois houve cassetes, CDs gravados, mensagens no telemóvel, versos partilhados, músicas enviadas às quatro da manhã com a cobardia moderna de quem diz “ouve isto” quando queria dizer “gosto de ti”.O hip hop tuga talvez tenha feito algo muito português: contou histórias. Só que, em vez de caravelas, falou de bairros; em vez de epopeias, falou de sobrevivência; em vez de heróis, falou de pessoas reais. Vale a pena lembrar que Portugal também se escreve em rimas. Nem sempre polidas, nem sempre elegantes, mas muitas vezes incómodas. Muitas vezes com palavras que não passariam no crivo dos guardiões da boa linguagem, mas visceralmente portuguesas. E talvez Camões percebesse isso melhor do que imaginamos.



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