Há crises que expõem escolhas. A escalada dos preços do gasóleo, da eletricidade e dos fertilizantes, desencadeada pelo conflito no Irão e pela instabilidade crescente no estreito de Ormuz, desde o início de 2026, é uma delas. Para os agricultores portugueses, que já suportavam margens esmagadas e um rendimento muito baixo, quando comparado com as restantes profissões, o choque foi brutal: o gasóleo agrícola subiu 30% em menos de três semanas, a ureia duplicou de preço, e o nitrato aumentou mais de 20%. Os fertilizantes representam 30 a 40% dos custos de produção numa exploração agrícola típica. O gasóleo é responsável por cerca de 70% da energia consumida no setor.Perante isto, o Governo de Luís Montenegro anunciou um pacote de cerca de 30 milhões de euros. É pouco. E vem tarde.O que fez o governo anterior — e os números falam por siImporta estabelecer o ponto de comparação com rigor. Quando a guerra na Ucrânia fez disparar os custos agrícolas em 2022 e 2023, o governo do PS respondeu com 317 milhões de euros em apoios extraordinários efetivos, mobilizados em menos de dois anos. A decomposição é clara: 137 milhões de euros na medida excecional e temporária de compensação pelo acréscimo dos custos de produção agrícola e pecuária — a maior medida de apoio direto ao rendimento alguma vez implementada em Portugal neste âmbito, aprovada pela Comissão Europeia ao abrigo do Quadro Temporário de Crise da UE; 57,1 milhões de euros via medida excecional FEADER, divididos por bovinos de carne, ovinos, hortofruticultura e culturas arvenses; 27,3 milhões de euros da Reserva de Crise comunitária, cofinanciada por fundos nacionais; 32 milhões de euros de apoio ao gasóleo colorido em 2022, a par de uma redução do ISP de seis cêntimos por litro; 20 milhões de euros para eletricidade verde em 2022; 32,2 milhões de euros de apoio adicional ao gasóleo em 2023; 7 milhões de euros para eletricidade verde em 2023; Outras medidas complementares para cooperativas, organizações de produtores e agricultores do regime da pequena agricultura.A estes acresceram uma antecipação de 500 milhões de euros do Pedido Único 2022 (paga em julho desse ano a mais de 35.000 beneficiários), a isenção de IVA em adubos, fertilizantes, corretivos de solos e alimentação animal, e majorações de 20% no IRC sobre gastos energéticos, bem como linhas de crédito de tesouraria da ordem dos 760 milhões de euros. Acresçam-se ainda 30 milhões de euros para promoção externa e 15 milhões para a indústria agroalimentar intensiva em gás. O total mobilizado, incluindo instrumentos financeiros, ultrapassou os mil milhões de euros. Os apoios chegaram ao terreno.O que faz o Governo AD — e o que ainda não chegouEm março de 2026, dois meses depois do início da escalada de preços, o Governo aprovou um desconto de dez cêntimos por litro no gasóleo agrícola colorido, com aplicação retroativa a 1 de abril. O pagamento pelo IFAP, e segundo admitiu o próprio ministro José Manuel Fernandes na Assembleia da República, só começará em junho. Ou seja, três meses depois do choque.A 30 de abril, num Conselho de Ministros em Beja, na Ovibeja, foram anunciados 20 milhões de euros para fertilizantes e energia. Somados aos dez milhões para apoio ao gasóleo, chega-se a 30 milhões do “pacote” governamental.Há apenas um problema: o dinheiro foi anunciado, a Resolução do Conselho de Ministros publicada, mas ainda não chegou um euro ao terreno nesta componente.Há ainda outro dado revelador: a linha de 40 milhões de euros para reposição do potencial produtivo nas zonas de calamidade tinha mobilizado, até ao final de março, apenas um milhão de euros em candidaturas. Dois e meio por cento da dotação disponível. Ou o instrumento está mal desenhado, ou os agricultores não conseguem aceder a ele, ou ambas as coisas. O Governo não explicou. A PARCA, a plataforma de acompanhamento das relações na cadeia agroalimentar, que seria o fórum adequado para discutir estas questões, não se reuniu desde o início da crise. Preocupante…O que os outros fazem — e o que não fazemosA comparação com Espanha é politicamente incómoda para o Governo Português. O Governo de Pedro Sánchez aprovou em março de 2026 um Plano Integral de Resposta à crise no Médio Oriente no valor de 5000 milhões de euros, com 80 medidas. A Hungria e a Croácia fixaram tetos de preço para combustíveis utilizados na agricultura.
O impacto dos fertilizantes nos preços dos alimentos ainda não se fez sentir em pleno — os economistas avisam que a segunda vaga virá no segundo semestre. Trigo, arroz, milho, leguminosas, leite, carne: o custo de produção de todos estes alimentos vai subir, e a pressão vai repercutir-se no cabaz alimentar de famílias que já não têm margem
Em Portugal, o Governo recusou redução do ISP, recusou tetos de preço, recusou qualquer intervenção fiscal sobre o cabaz alimentar, e apresentou como argumento a necessidade de preservar as contas públicas. A estabilidade das contas é importante — ninguém contesta isso. Mas a questão é saber quem paga essa estabilidade. Em 2026, são os agricultores.O que está em jogoA inflação geral subiu para 3,3% em abril de 2026. O impacto dos fertilizantes nos preços dos alimentos ainda não se fez sentir em pleno — os economistas avisam que a segunda vaga virá no segundo semestre. Trigo, arroz, milho, leguminosas, leite, carne: o custo de produção de todos estes alimentos vai subir, e a pressão vai repercutir-se no cabaz alimentar de famílias que já não têm margem.Há uma escolha política aqui. Em 2022 e 2023, o Estado português decidiu que a agricultura não podia ser deixada sozinha perante um choque exógeno, e respondeu com mais de 317 milhões de euros em medidas que chegaram efetivamente às explorações. Em 2026, o Governo invoca a estabilidade orçamental como argumento e recomenda ao setor que espere pela próxima PAC. O que foi anunciado é pouco. E vem tarde.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
