Protecção do oceano avança, mas as pressões humanas crescem mais depressa

Protecção do oceano avança, mas as pressões humanas crescem mais depressa

Protecção do oceano avança, mas as pressões humanas crescem mais depressa

O Dia Mundial do Oceano, assinalado esta segunda-feira, alerta para a importância de uma rede global de Áreas Marinhas Protegidas (AMP) que “restaure ecossistemas”, lembrando que “todas as nações dependem de oceanos saudáveis”. Reconhecido pelas Nações Unidas desde 2008, a efeméride envolve este ano mais de duas mil organizações em 180 países, sob o tema “Áreas Marinhas Protegidas robustas para o nosso Planeta Azul”.A mensagem oficial sublinha que a criação de áreas marinhas protegidas “rigorosamente regulamentadas” é essencial para alcançar a meta de proteger pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030.Para marcar a data, é hoje publicado o Starfish Barometer 2026, um relatório científico anual elaborado por mais de 30 investigadores de todo o mundo e publicado na revista científica State of the Planet, que traça um retrato detalhado e preocupante do estado dos mares. O diagnóstico é claro: os esforços de protecção avançam, mas as pressões humanas sobre o oceano crescem mais depressa.O que diz a ciênciaOs números do Starfish Barometer dão substância ao apelo do Dia do Oceano sobre áreas protegidas. A cobertura global de AMP subiu para 10,01% do oceano em meados de 2026, face a 8,34% em 2024, um progresso real, mas ainda muito distante da meta de 30% de protecção até 2030. Mais preocupante ainda é que apenas 3,2% do oceano está totalmente ou altamente protegido, e é precisamente nestas zonas que a protecção é efectiva.Em contraste, estudos recentes citados no relatório revelam que, entre 2022 e 2024, 67% das embarcações de pesca industrial que operam dentro de AMP costeiras não eram rastreadas publicamente, denunciando falhas graves de fiscalização nas áreas que representam 17,4% da protecção marinha global.O estado dos ecossistemas agrava a urgência: entre Janeiro de 2023 e Setembro de 2025, 84,4% dos recifes de coral do planeta sofreram stress térmico suficiente para provocar branqueamento, um recorde absoluto que supera largamente os 68,2% registados durante o episódio de 2014 a 2017.O número de espécies marinhas ameaçadas subiu para 1685, com 30 espécies a registar deterioração do estatuto de conservação no último ano e 1224 a apresentar declínio populacional. Todos os ecossistemas húmidos costeiros estão também a perder superfície desde 1970: os recifes de coral encolheram 26,4%, as florestas de algas 48,1%, os mangais 11,8%.O aquecimento e a subida do nível do mar também aceleram, com a taxa de subida média global a passar de 2,6 milímetros por ano entre 1993 e 2011 para 4,2 milímetros por ano entre 2012 e 2025. Em 2025, o calor oceânico atingiu valores recorde, e 20% do oceano global sofreu condições de onda de calor marinha intensa em Junho desse ano.Avanços institucionaisNo plano da governação, o ano trouxe mudanças significativas. Em Janeiro de 2026 entrou em vigor o Tratado do Alto-Mar, que cria um quadro jurídico partilhado para proteger os 61% do oceano situados além das jurisdições nacionais e permite, pela primeira vez, designar AMP em águas internacionais e estabelecer avaliações de impacto ambiental nestas zonas. Em Setembro de 2025, entrou também em vigor um tratado que proíbe os subsídios públicos à pesca ilegal, um dos principais motores do esgotamento global das unidades populacionais de peixe.Em Dezembro de 2025, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES) atribuiu o nível máximo de protecção ao tubarão-oceânico, ao tubarão-baleia e às raias-manta e diabo, num passo significativo contra a sobreexploração destas espécies.Portugal surge, neste contexto, como um caso a seguir. O país possui a terceira maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia e a décima primeira do mundo, correspondendo o mar a 97% do território nacional quando consideradas todas as suas dimensões. Em Outubro, o Governo previa antecipar para 2026 a meta dos 30% de AMP, com a criação da Reserva Natural Marinha D. Carlos, que cobre 173 mil quilómetros quadrados de montes submarinos e planícies abissais entre Sagres e o Arquipélago da Madeira.Fosso persisteO Starfish Barometer termina com uma nota de alerta: apesar do progresso institucional, o fosso entre as pressões crescentes e os esforços de protecção continua a alargar-se. As emissões do transporte marítimo mantêm-se estáveis, sem sinais claros de descarbonização.Os resíduos plásticos atingiram um recorde de 130 milhões de toneladas produzidas em 2025 e os sistemas de observação oceânica in situ (infra-estruturas críticas para monitorizar e proteger os mares) estão a encolher por falta de financiamento, mesmo quando a procura de informação sobre o oceano nunca foi tão grande.“A protecção do oceano, incluindo o alto-mar, é uma responsabilidade partilhada”, lembra a mensagem do Dia Mundial do Oceano 2026. A ciência acrescenta que essa responsabilidade está, por enquanto, a ser cumprida de forma insuficiente. com Lusa

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