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O trem rápido, silencioso e com serviço amável que me leva para Cracóvia está muito distante dos trilhos que, em 1942, transportaram aproximadamente 300 mil judeus de Varsóvia para o campo de Treblinka, para escreverem com dor, sob a tutela de um nazista-fascista, um dos momentos de maior crueldade da história do mundo. Em 1944, após o levante do Gueto de Varsóvia, chegou-se a um total de 1,1 milhão a 1,5 milhão de pessoas enclausuradas, onde a maioria foi exterminada em Auschwitz-Birkenau, Majdanek, Treblinka e outros 30 campos principais, além dos subcampos, somando, no período de 1933 a 1945, seis milhões de judeus.Na velocidade de mais de 200 km por hora, no moderno Pendolino da Express InterCity Premium, meu olhar, acompanhado por gentis poloneses e dezenas de outras nacionalidades, percorre a verde paisagem dos campos na primavera do Leste europeu. É difícil imaginar que este trajeto, abundante, florido e agradável, está em fotos e vídeos que expressam dor, terror, destruição, racismo, xenofobia, machismo e violência nas paredes da arrojada arquitetura do Museu POLIN, dos arquitetos finlandeses Rainer Mahlamäki e Ilmari Lahdelma.São 81 anos que nos separam dos tempos do terror, a um país integrado, receptivo e gentil à comunidade de brasileiros e portugueses que elegeram, por questões de pesquisa, estudo e outras oportunidades, viver numa cidade limpa, organizada e, acima de tudo, respeitosa com o outro. No total, estima-se que 1,5 milhão de imigrantes vivam na Polônia, de acordo com o ZUS — Instituição de Seguros Sociais da Polônia —, onde famílias da Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Índia e Colômbia colaboram nos setores de logística, tecnologia, culinária e serviços.A comunidade brasileira representa um número ainda tímido de 3 mil pessoas, inseridas no mercado de tecnologia da informação, finanças, logística e no ensino de idiomas. Os portugueses, assim como os brasileiros, em número reduzido, também ocupam posições na indústria de tecnologia, auditoria e finanças, com a vantagem competitiva de serem membros da União Europeia. Brasil e Portugal juntos e em harmonia em outro território.A história, os números e as rígidas e organizadas leis de imigração da Polônia me fazem pensar por que o encontro com portugueses em solo polonês é mais gentil — quase fraterno — e, quando as duas nacionalidades se encontram em Portugal, surge o estranhamento, além do caos da infraestrutura da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) com todos que chegam, fomentando, então, insegurança e discórdia.São centenas de advogados brasileiros e portugueses oferecendo serviços jurídicos voltados à imigração, muitas vezes em conjunto, com alto investimento publicitário nas plataformas digitais. Fico confuso com essa aproximação junto ao levante de um muro moral, burocrático, ultrapassado e confuso.Isso me faz pensar que os homens que são parte da liderança política a qual me refiro no título deste artigo são os principais responsáveis por cindir processos que a Polônia, junto com a Espanha e outros países, vem demonstrando que a regra, quando adequada e respeitosa, vence o equívoco de líderes em manter uma sociedade presa — quase como o gueto que vi em ruínas em Varsóvia — nos seus mesquinhos projetos de poder e dinheiro, a ponto de criar uma das maiores crises habitacionais que Portugal vive. Portugueses sem condições de morar no seu próprio país e imigrantes, atraídos por promessas, lidam com o derretimento dos seus investimentos emocionais e financeiros .No Leste europeu, o pesquisador polonês mais influente na área de estudos migratórios, Marek Okólski — fundador do Centro de Pesquisa sobre Migração da Universidade de Varsóvia ajudou a formular a ideia de que a Polônia passou de país de emigração para país de imigração.Ele não defende fronteiras totalmente abertas e argumenta que: “a imigração é uma consequência normal da globalização; sociedades envelhecidas, como a polonesa, precisam de trabalhadores estrangeiros; a integração dos migrantes é uma questão de política pública, não uma ameaça inevitável à identidade nacional.” Este conceito e pesquisa estão no livro 30 Lições sobre Migrações, publicado em 2025.Uma outra autora postula o conceito de que “…remessas sociais”, segundo o qual pessoas que migram levam e trazem ideias, valores e práticas que transformam as sociedades de origem e destino, são agentes potentes para o crescimento de uma nação …”, presente no livro O Impacto da Imigração na Polônia, da pesquisadora Izabela Grabowska.Penso que, a partir da visita que fiz à Polônia e da integração como imigrante nas conversas em espaços públicos e órgãos de informação, a forma como Portugal tende a desprezar a nacionalidade brasileira — que mantém a língua viva e a economia girando por meio de investimentos imobiliários, tecnologia da informação, empresas e serviços — é vista ou distorcida por pequenos e erráticos exemplos presentes em qualquer sociedade. É um trágico testemunho da natureza humana.
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