
A família de uma das 16 vítimas mortais do acidente no Elevador da Glória, em Lisboa, que exige uma indemnização de um milhão de euros à Carris, à sua seguradora e à empresa responsável pela manutenção do ascensor, chamou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, como testemunha.
Segundo o jornal Público, que avançou também com a notícia sobre a ação judicial, Zelensky foi chamado a depor por escrito por ter sido um dos líderes internacionais que manifestaram publicamente condolências às vítimas e respetivas famílias após o acidente.
Para a família de Ana Paula, de 49 anos, o facto de Zelensky, presidente de um país em guerra, ter lamentado as mortes demonstra o impacto excecional do caso, que “extravasa largamente” um acidente comum.
O marido e a filha de Ana Paula, que morreu após sair do trabalho na Santa Casa da Misericórdia, pediram também que a Carris publique um pedido de desculpas em órgãos de comunicação social de circulação nacional, tanto em formato impresso como digital, como forma de reparação moral pelos danos sofridos.
Para os familiares, esta é uma medida simbólica que consideram ser “a forma adequada de compensação moral pelos danos não patrimoniais sofridos e de reconhecimento institucional da gravidade do evento”.
A família defende ainda que o acidente abalou a confiança dos cidadãos nos transportes públicos, argumentando que os utentes têm o direito de esperar que os equipamentos sejam alvo de manutenção rigorosa, disponham de sistemas de segurança eficazes e sejam devidamente fiscalizados.
“Os utentes e consumidores de transportes públicos, nos quais se enquadram os autores, tem uma expectativa legítima de que os equipamentos disponibilizados para transporte de pessoas se encontrem em condições técnicas adequadas, sejam objecto de manutenção rigorosa, disponham de sistemas de segurança eficazes e sejam fiscalizados de forma contínua pelas entidades competentes”, lê-se na ação judicial, assinada pelo advogado Nuno Pinto Coelho de Faria e pela colega Carolina Patinhas, citada pelo Público.
Marido e filha de Ana Paula avançaram com ação judicial e pedem indemnização de um milhão de euros
A família de Ana Paula, recorde-se, avançou com uma ação judicial no qual exige uma indemnização de cerca de um milhão de euros à Carris, à sua seguradora e à empresa que assegurava a manutenção do elevador, a Mntc – Serviços Técnicos de Engenharia.
Segundo revelou o jornal Público, a ação foi apresentada esta semana no Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa pelo marido e pela filha da vítima, que alegam ter sofrido danos patrimoniais e não patrimoniais na sequência da tragédia ocorrida a 3 de setembro do ano passado.
Ana Paula, de 49 anos, trabalhava na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e utilizava regularmente o Elevador da Glória para se deslocar. Terá sido uma das últimas pessoas a entrar no ascensor pouco antes de o cabo que ligava as duas cabinas se romper, provocando o descarrilamento.
Na ação judicial, os familiares detalharam os momentos e angústia que se seguiram. O alerta do desaparecimento de Ana Paula foi dado por uma amiga, que estranhou a sua ausência e o facto de não lhe atender o telemóvel, depois de terem combinado ir ao ginásio juntas.
O marido, Isaque, estava a assistir a uma aula na qualidade de inspector da Autoridade Nacional da Aviação Civil, tinha o telemóvel no silêncio e só depois percebeu que a mulher estava desaparecida e que tinha acontecido um acidente grave no Elevador da Glória.
“Nas horas que se seguiram, o autor percorreu vários locais, efetuou sucessivas chamadas, procurou informação junto de colegas da esposa, de profissionais de saúde e das autoridades, vivendo num estado de ansiedade crescente, entre informações desencontradas, rumores e total ausência de confirmação quanto ao paradeiro da esposa”, lê-se na ação que Isaque Adam e a filha apresentaram, citada pelo Público.
Pai e filha, que regressou a Lisboa vinda do Algarve, passaram a noite a rezar e, na manhã seguinte, procuraram Ana Paula pelos hospitais da capital. Algum tempo depois, receberam uma chamada para deslocarem à Polícia Judiciária (PJ), onde seria confirmado que Ana Paula era uma das 16 vítimas mortais.
A família sustenta que existiram falhas graves na manutenção, fiscalização e controlo de segurança do equipamento. Os autores da ação apoiam-se nas conclusões do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF), que identificou diversas deficiências técnicas e organizacionais relacionadas com a operação e manutenção do elevador.
A ação judicial argumenta ainda que o Estado falhou ao não assegurar uma fiscalização independente de um meio de transporte utilizado diariamente por milhares de passageiros.
“É incompreensível e inadmissível que o Estado português e o próprio município de Lisboa tenham permitido que a segurança de um transporte histórico, utilizado diariamente por milhares de passageiros, ficasse exclusivamente dependente da própria entidade operadora e das empresas por si subcontratadas, à mercê de trabalhadores sem qualquer formação, sem supervisão e controlo externo e independente, especialmente em matéria de segurança”, lê-se no documento.
O elevador da Glória, muito procurado por turistas no centro de Lisboa, descarrilou no dia 3 de setembro de 2025, com uma das duas cabinas a embater violentamente contra um edifício, provocando 16 mortes e mais de 20 feridos, entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades.
A Câmara de Lisboa, sob presidência de Carlos Moedas (PSD), suspendeu “de imediato” o funcionamento dos ascensores da Bica e do Lavra e do funicular da Graça para os equipamentos serem inspecionados.
A autarquia decidiu ainda nomear uma comissão técnica independente para avaliar as condições de todos os ascensores e funiculares da cidade, tendo entretanto já aberto o funicular da Graça, em abril.
Pedro de Brito Bogas, presidente da Carris à data do acidente, demitiu-se após a investigação do GPIAAF concluir que o cabo que unia as duas cabinas do elevador da Glória, e que cedeu, não respeitava especificações nem estava certificado para transporte de pessoas.
A família de Ana Paula, uma das 16 vítimas mortais do acidente no Elevador da Glória, avançou com uma ação judicial contra a Carris, a sua seguradora e a empresa responsável pela manutenção do ascensor, pedindo uma indemnização superior a um milhão de euros.
Márcia Guímaro Rodrigues | 10:03 – 03/06/2026
