TECNOLOGIA

Uma pesquisa na IA equivale a uma garrafa de água por cada vinte perguntas, a Google quer travar o consumo

A expansão fulgurante da inteligência artificial e dos serviços de computação em nuvem trouxe consigo o muito badalado aumento de consumo energia eléctrica, mas também uma grande necessidade de água para arrefecer os servidores das grandes empresas de tecnologia. Diante de uma contestação pública crescente e da pressão por parte de accionistas preocupados com os riscos ambientais, a Google apresentou um conjunto de directrizes que pretende ver transformadas no padrão regulador para toda a indústria.O documento, divulgado esta quarta-feira, visa “estabelecer critérios rigorosos e transparentes” sobre a forma como os centros de dados utilizam e repõem a água doce. O sector enfrenta críticas severas um pouco por todo o mundo, com populações locais a insurgirem-se contra a construção de novas infra-estruturas, apontando o receio de escassez de água, a subida dos preços da electricidade e o ruído ensurdecedor dos complexos industriais.Explicado de forma simples, os computadores gigantescos que processam cada pesquisa na Internet ou cada resposta de modelos de IA generativos, como o ChatGPT, geram calor extremo. Para evitar que os circuitos avariem, a água surge como a solução mais barata e energeticamente eficiente para reduzir a temperatura interior das instalações, permitindo poupar energia em comparação com sistemas baseados puramente em ar condicionado. No entanto, este método funciona como uma palhinha gigante instalada nas bacias hidrográficas locais, evaporando milhões de litros diariamente.Estudos indicam que uma consulta rotineira numa plataforma de inteligência artificial consome muito mais recursos hídricos do que uma pesquisa tradicional, podendo chegar ao equivalente a uma garrafa de água por cada vinte perguntas formuladas. Os relatórios ambientais da própria Google revelam que os seus centros de dados consumiram cerca de 20 mil milhões de litros de águas em termos globais num único ano, sendo que uma percentagem significativa provém de áreas que já sofrem de escassez moderada ou elevada.Pressão popular e dos investidoresEsta realidade gerou uma reacção em cadeia. Nos Estados Unidos, vários projectos bilionários de centros de dados foram travados ou cancelados devido à oposição de comunidades locais que temem ver as suas torneiras secar ou a pressão da água doméstica cair abruptamente. Ao mesmo tempo, mais de uma dúzia de fundos de investimento exigiram formalmente que a Google, a Microsoft e a Amazon divulguem dados específicos e detalhados sobre o consumo hídrico e energético de cada instalação individualizada, antes das respectivas assembleias gerais anuais.


Para acalmar os ânimos, as gigantes tecnológicas têm adoptado sistemas de arrefecimento de circuito fechado, que reutilizam a água vezes sem conta, minimizando as perdas directas. Mas o problema estende-se ao consumo indirecto: a produção da electricidade necessária para alimentar estes templos digitais gasta milhares de milhões de litros nas centrais eléctricas.A estratégia da Google para contrariar esta pegada ecológica assenta num compromisso assumido anteriormente: repor 120% do volume de água doce que consome nas suas operações até ao ano de 2030. A empresa salienta que a sua abordagem não passa unicamente por reduzir, mas por compensar activamente o ecossistema. Segundo os responsáveis de sustentabilidade da empresa, o empenho reside em “garantir que devolvemos mais do que retiramos, especialmente em regiões com maior risco de escassez ou esgotamento hídrico”.Os dados mais recentes indicam que a carteira de sustentabilidade da tecnológica já atingiu cerca de 30 mil milhões de litros repostos através de mais de 160 projectos distribuídos por cerca de uma centena de bacias hidrográficas mundiais. Estas iniciativas vão desde a introdução de sensores e agricultura de precisão para poupar água nas irrigações na Bélgica e no rio Colorado, até à restauração de ecossistemas naturais, como as turfeiras nas montanhas de Wicklow, na Irlanda, que aumentam a retenção natural de água e reduzem o risco de cheias locais. Com estas novas propostas de normalização, a Google tenta passar de visada a líder de uma transformação urgente.

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