Hamas saúda inclusão de Israel em lista da ONU sobre violência sexual
A medida foi de imediato condenada pelo Governo israelita, que anunciou o “corte de todas as relações” com o gabinete do secretário-geral da ONU, António Guterres.
“O Hamas aplaude a inclusão da entidade ocupante sionista na lista negra das Nações Unidas de perpetradores de violência sexual em zonas de conflito, com base em provas documentadas e testemunhos obtidos através dos mecanismos pertinentes da ONU”, declarou o movimento num comunicado.
Segundo o Hamas, “este passo constitui uma nova documentação dos crimes organizados e atrozes cometidos pelo Exército ocupante contra o povo palestiniano”, bem como “um marco importante no tão aguardado caminho para levar os líderes da ocupação, criminosos de guerra, à justiça”.
Sublinhou, assim, que a medida “não deve limitar-se a um registo ou descrição da ONU, devendo ser seguido de passos práticos e dissuasores para deter as violações por parte do Governo do criminoso de guerra [o primeiro-ministro israelita, Benjamin] Netanyahu”, noticiou o diário palestiniano Filastin.
O movimento, desde 2007 no poder na Faixa de Gaza, defendeu, para tal, “uma passagem imediata da condenação para a prestação de contas, através do fornecimento de proteção internacional ao povo palestiniano e dos julgamentos dos responsáveis por estes crimes perante tribunais internacionais”.
O Hamas apelou ainda às organizações internacionais para que “intensifiquem os seus esforços para documentar os crimes e violações cometidos pela ocupação contra o povo palestiniano” e “trabalhem para processar os seus líderes e soldados”, além de “denunciarem estas práticas criminosas perante a opinião pública mundial”, para “acabar com a impunidade que incitou a ocupação a prosseguir os seus crimes”.
Israel declarou a 07 de outubro de 2023 uma guerra na Faixa de Gaza para “erradicar” o movimento islamita palestiniano Hamas, horas depois de este ter realizado em território israelita um ataque de proporções sem precedentes, matando cerca de 1.200 pessoas e sequestrando 251.
Desde que entrou em vigor um acordo de cessar-fogo em Gaza, a 10 de outubro de 2025, mais de 900 palestinianos foram mortos e cerca de 2.700 ficaram feridos em ataques do Exército israelita, segundo números do Ministério da Saúde local, que a ONU considera fidedignos.
Durante esse mesmo período, os corpos de outros 777 palestinianos foram recuperados. No total, a guerra de retaliação de Israel no enclave palestiniano fez até agora 72.800 mortos, entre os quais mais de 21.000 crianças, e mais de 170 mil feridos.
Fez igualmente milhares de desaparecidos, soterrados nos escombros e espalhados pelas ruas, e mais alguns milhares que morreram de doenças e infeções e fome, causada por mais de dois meses de bloqueio total de ajuda humanitária e pela posterior entrada a conta-gotas de mantimentos, distribuídos em pontos considerados “seguros” pelo Exército, que regularmente abria fogo sobre civis famintos.
Há muito que a ONU tinha declarado o território em grave crise humanitária, com mais de 2,1 milhões de pessoas numa “situação de fome catastrófica” e “o mais elevado número de vítimas alguma vez registado” pela organização em estudos sobre segurança alimentar no mundo, mas a 22 de agosto de 2025 emitiu uma declaração oficial do estado de fome na cidade de Gaza e suas imediações.
Já no final de 2024, uma comissão especial da ONU acusara Israel de genocídio em Gaza e de usar a fome como arma de guerra, situação também denunciada por países como a África do Sul junto do Tribunal Internacional de Justiça, e uma classificação igualmente utilizada por organizações internacionais de defesa dos direitos humanos.
Há três dias, o primeiro-ministro israelita anunciou ter ordenado ao Exército para assumir o controlo de novos territórios em Gaza, uma decisão logo condenada pelo Hamas.
“Controlamos agora 60% do território da Faixa de Gaza”, declarou Benjamin Netanyahu, acrescentando ter ordenado ao Exército que aumentasse essa percentagem para 70%.
“Numa flagrante violação de todos os acordos, como é seu hábito, Netanyahu anunciou a extensão do controlo de Israel para 70% da Faixa de Gaza, enquanto prosseguem os assassínios e a fome”, acusou Bassem Naim, membro do gabinete político do Hamas.
Noutro comunicado, o Hamas criticou o “silêncio total” do “Conselho de Paz” do Presidente norte-americano, Donald Trump, e do seu alto representante para Gaza, Nikolai Mladenov, sobre esta questão.
“A ausência de condenação das políticas expansionistas de Israel e dos seus planos de deslocação forçada levanta sérias dúvidas quanto ao verdadeiro empenho das partes garantes em obrigar Israel a cumprir as suas obrigações” nos termos do acordo de cessar-fogo, disse o porta-voz do movimento, Hazem Qassem, citado no texto.
A primeira fase da trégua, entrada em vigor em outubro de 2025, permitiu a libertação dos últimos reféns capturados durante o ataque do Hamas a Israel, a 07 de outubro de 2023, em troca de palestinianos detidos por Israel nas prisões.
A passagem à segunda fase, que devia incluir o desarmamento do Hamas e uma retirada gradual do Exército israelita do território palestiniano, está há vários meses paralisada.
Nos termos do frágil cessar-fogo vigente, as forças israelitas deviam recuar para a “linha amarela”, nome dado a uma linha de demarcação entre a zona sob o controlo do Hamas e a controlada pelo Exército de Israel, o que daria a este último o controlo de um pouco mais que 50% do exíguo território do enclave palestiniano.
A Faixa de Gaza continua a ser palco de atos de violência diários, com o Exército israelita e o Hamas a acusarem-se mutuamente de violar o cessar-fogo.
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