
Durante as semanas em que esteve destacado em Gaza, disse, viu soldados a aproveitarem a oportunidade para perseguirem aqueles que atravessaram – ou se aproximaram – da chamada linha amarela que divide a Faixa de Gaza em áreas controladas por Israel e pelos palestinianos.
“Era uma selva,” contou à Associated Press o soldado, com 20 anos. “Depois do cessar-fogo, a ordem foi: ‘Se alguém cruzar a linha, dispara'”.
Com os esforços diplomáticos para alcançar um acordo estagnados, três soldados descreveram à agência de notícias norte-americana um sentimento de confusão nos territórios em conflito, com falta de clareza nas regras em torno da designada “linha amarela”.
Alguns comandantes apenas fingiam concordar com o acordo, enquanto em privado expressavam o desejo de que a guerra em Gaza continuasse, disseram os soldados.
Por vezes, as tropas estavam muito distantes ou atuavam muito rapidamente para reconhecerem quem estavam a alvejar, afirmou um dos soldados, confirmando denúncias de um grupo de veteranos.
Desde a entrada em vigor do cessar-fogo, mais de 900 pessoas foram mortas em Gaza, dezenas das quais perto ou para lá da linha, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
Por seu lado, o exército israelita considera que a maioria das pessoas mortas a atravessar a linha constituem uma ameaça para as suas tropas. No entanto, soldados que falaram à AP e à organização Breaking The Silence, que reúne depoimentos de militares que denunciam violações de direitos humanos, dizem que, por vezes, os soldados estavam demasiado longe, agiram demasiado rápido e sob demasiada pressão para conseguir avaliar.
A primeira fase da trégua, entrada em vigor em outubro de 2025, permitiu a libertação dos últimos reféns capturados durante o ataque do Hamas a Israel, a 07 de outubro de 2023, que desencadeou, horas depois, uma guerra de retaliação na Faixa de Gaza, em troca de palestinianos detidos por Israel nas prisões.
A passagem à segunda fase, que devia incluir o desarmamento do Hamas e uma retirada gradual do exército israelita do território palestiniano, está há vários meses paralisada.
Nos termos do frágil cessar-fogo vigente, as forças israelitas deviam recuar para a “linha amarela”, nome dado a uma linha de demarcação entre a zona sob o controlo do Hamas e a controlada pelo Exército de Israel, o que daria a este último o controlo de um pouco mais que 50% do exíguo território do enclave palestiniano.
A Faixa de Gaza continua a ser palco de atos de violência diários, com o exército israelita e o Hamas a acusarem-se mutuamente de violar o cessar-fogo.
A UNICEF defendeu hoje que a intenção declarada pelo Governo de Israel de ocupar 70% da Faixa de Gaza aumentará o sofrimento das famílias palestinianas, privadas dos serviços mais básicos, e dificultará o trabalho das organizações humanitárias.
Lusa | 21:51 – 29/05/2026
