×

O país onde matar ainda se chama equilíbrio

O país onde matar ainda se chama equilíbrio

O país onde matar ainda se chama equilíbrio

Há uma frase que devia fazer parar qualquer país que ainda se leve a sério em matéria de ciência, biodiversidade e ética pública: “Temos, no fundo, javalis a mais e caçadores a menos.”A frase é do ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, numa intervenção parlamentar depois divulgada nas suas redes sociais. No mesmo vídeo, defende que promover a caça será importante para o “equilíbrio” do território. Não é uma frase lateral. É a síntese perfeita de um modo antigo de governar: perante um problema ecológico complexo, responde-se com morte; perante a necessidade de conhecimento técnico, oferece-se convicção; perante alternativas não letais, ri-se da própria ignorância.O problema não é apenas a caça. É a facilidade com que se chama “equilíbrio” ao que, muitas vezes, é apenas uma autorização legal para matar. É a ligeireza com que se invoca a biodiversidade para justificar práticas que não nascem da necessidade alimentar de uma população, mas de uma actividade lúdica organizada, onde matar animais continua a ser apresentado como gestão, tradição ou serviço público.A gestão dos javalis é complexa. Há impactos agrícolas, riscos rodoviários, questões sanitárias e conflitos com populações humanas. Mas a complexidade exige ciência, não slogans de taberna. O javali chegou a ser considerado quase extinto em Portugal no final da década de 1960, num contexto marcado pela peste suína africana e pela sobre-caça, tendo depois recuperado e expandido a sua distribuição. A nível europeu, a literatura científica aponta para a influência humana em translocações, reintroduções e alterações genéticas em populações de javali. Ou seja: parte dos problemas que hoje se apresentam como “natureza em excesso” foram produzidos por escolhas humanas, gestão cinegética e interesses económicos.Quando um governante reduz a questão a “javalis a mais e caçadores a menos”, não está apenas a simplificar. Está a apagar responsabilidades. Está a transformar um problema ecológico, social e sanitário numa oportunidade para legitimar mais caça.


E este é apenas um dos sinais.O primeiro vem da Europa. A 30 de Abril de 2026, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução não legislativa sobre o futuro do sector pecuário que inclui um apelo politicamente gravíssimo à Comissão Europeia: deixar de financiar ONG que façam lobbying e transmitam uma imagem considerada “enganadora, militante e ideológica” da pecuária europeia. Não é uma lei. Mas é uma direcção.Desde quando denunciar os impactos da pecuária intensiva passou a ser tratado como ameaça ideológica? É ideologia dizer que os sistemas agro-alimentares foram responsáveis por 16,2 mil milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2022, cerca de 29,7% das emissões totais, segundo a FAO? É militância lembrar que o IPCC reconhece que mudanças nos sistemas alimentares são necessárias para a mitigação climática? É radicalismo referir que a Agência Internacional para a Investigação do Cancro classificou a carne processada como carcinogénica e a carne vermelha como provavelmente carcinogénica?Não. Isto não é militância. É evidência. Militância é querer que a ciência se cale quando toca nos interesses dos gigantes do capitalismo.O segundo sinal vem do ICNF e do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico, em Silves. Segundo foi noticiado, o ICNF informou que pretendia assumir directamente a gestão do centro, não renovando o contrato com a equipa que o assegurava. O caso gerou críticas públicas e preocupação na comunidade científica. Quando o centro foi inaugurado restavam menos de 150 linces-ibéricos em todo o mundo. Desde então, nasceram mais de 180 linces no centro de Silves e mais de uma centena foram preparados para reintrodução na natureza. O problema não é, em abstracto, uma mudança de gestão. O problema é a forma. Animais ameaçados não são dossiers. Não são inventário. Não se deslocam entre gabinetes sem uma transição técnica robusta, transparente e preparada.O terceiro sinal vem de Lisboa. A proposta n.º 260/2026 da câmara municipal relativa ao Regulamento do Provedor Municipal dos Animais prevê um provedor a tempo inteiro, mas contratado por aquisição de serviços — e impede que integre órgãos sociais de movimentos associativos ligados à defesa animal. É uma inversão quase perfeita: afasta-se, à partida, quem tem experiência real de terreno — quem recolhe animais, acompanha colónias, conhece centros de recolha, acompanha processos de maus-tratos, faz adopções e gere urgências onde o Estado não chega. A neutralidade sem competência é apenas vazio com boa aparência.É aqui que tudo se liga.Na Europa, tenta-se descredibilizar ONG que criticam a pecuária. No Governo, normaliza-se a caça como resposta quase automática a problemas ecológicos complexos. No ICNF, uma equipa especializada num projecto sensível é afastada num processo que levantou preocupações públicas. Em Lisboa, afasta-se o associativismo da Provedoria dos Animais, como se a experiência prática fosse uma ameaça.

A caça não pode continuar a ser vendida como equilíbrio quando a biodiversidade desaparece todos os dias. A pecuária não pode continuar blindada contra a crítica num século em que já conhecemos o seu peso climático, sanitário, territorial e ético




Não é uma coincidência. Ou, pelo menos, é cada vez mais difícil acreditar que seja apenas uma sucessão de coincidências. O que parece desenhar-se é uma política de domesticação da crítica: tolera-se a defesa dos animais desde que seja decorativa; aceita-se a biodiversidade desde que não mexa na caça e outros lobbys; aceita-se a sustentabilidade desde que não questione a pecuária.E depois chamam a isto moderação.A verdadeira moderação seria aceitar que o planeta mudou. Que a biodiversidade está em colapso. Que os animais são seres sencientes, não recursos descartáveis. Que a ciência tem de entrar nas decisões públicas antes dos interesses instalados. A caça não pode continuar a ser vendida como equilíbrio quando a biodiversidade desaparece todos os dias. A pecuária não pode continuar blindada contra a crítica num século em que já conhecemos o seu peso climático, sanitário, territorial e ético.Os animais pagam primeiro. Mas nós pagaremos a seguir.Porque um executivo que governa contra a ciência, contra a compaixão e contra a realidade não está apenas a falhar aos animais. Está a falhar ao futuro.

Publicar comentário