Novas narrativas para as velhas caças

Novas narrativas para as velhas caças

Novas narrativas para as velhas caças

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“Volta para tua terra, pá! Vocês estão consumindo a nossa Segurança Social”, disse-me, em tom de brincadeira, a professora de natação assim que ouviu meu sotaque brasileiro. Já escrevi outras vezes que este discurso não é exatamente sobre nós, brasileiros brancos de classe média — ainda que também sejamos atingidos por ele.Mas foi impossível não lembrar imediatamente de uma cena de Moamba, episódio da série Novas Narrativas de Caça, em que um homem vai jantar na casa dos pais brancos da namorada e é recebido com uma “piada” racista daquelas que dispensam reprodução, porque o leitor provavelmente já ouviu alguma semelhante algures.Talvez esteja aí uma das maiores inteligências da série criada por Luís Almeida, mostrar que a violência racial raramente se apresenta como violência para quem a pratica. Ela aparece como humor, desconforto, mal-entendido, excesso de sensibilidade alheia. A branquitude quase sempre se inocenta enquanto age para perpetuar seu status.Novas Narrativas de Caça tem tudo o que uma grande série precisa ter. Em primeiro lugar, grandes atores. Há interpretações aqui da ordem do hipnótico. Daniel Martinho, Gonçalo Cabral, Nuna, Binete Undoque, Carla Gomes, Suzana Francês, Carlos Pereira, Catarina Amaral, Nádia Silva, Camila Cerqueira, Mavá José, Pedro Lopes e Cirila Bossuet, recém-premiada com o Sophia de Melhor Atriz Coadjuvante, para citar alguns.Impossível não ficar arrepiada com Isabel Zuaa, que realiza algo raríssimo e parece um furacão calmo. Como é possível tanta coisa acontecer com tanta delicadeza? Nas Novas Narrativas de Caça, os atores são verdadeiras feras.Mas uma boa série não se faz apenas com bons atores. Os argumentos são excelentes justamente porque contam histórias que raramente vemos na televisão portuguesa — e menos ainda na televisão aberta. Anotem estes nomes: Gisela Casimiro, Lara Mesquita, Fábio Silva, Diogo Gazella Carvalho, Dércio Tomás Ferreira, Cláudia Semedo e o próprio Luís Almeida.Cada episódio é independente, mas o conjunto forma uma espécie de mosaico da experiência negra contemporânea em Portugal — mosaico este que não se esgota aqui e que implora por uma nova temporada. O mais interessante é que as linguagens variam muito entre si.Moamba transforma um jantar numa câmara de tortura (e constrangimento) social, ainda que (essa é a beleza) sem abrir mão da ternura. Once You Go Black, de Lara Mesquita, tem algo de Sex and the City em Marvila, é leve, engraçado, romântico; Recursos Humanos, de Gisela Casimiro, opera como thriller social; Os Sobreviventes, de Dércio Tomás Ferreira, aproxima-se da distopia futurista para discutir alianças, medo, sobrevivência e o capitalismo aliado ao racismo; UNDEU, de Diogo Gazella Carvalho, nos convoca a pensar que outras possibilidades temos além das repetições.Há episódios mais solares, outros devastadores. Há episódios mais bem conseguidos, como em toda série de antologia. Mas todos partem de um gesto semelhante, o de retirar da figura do “caçador” o monopólio da narrativa.O título da série ecoa aquele provérbio africano frequentemente associado a Chinua Achebe, que o popularizou neste contexto da criação decolonial: “Até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.” E talvez seja precisamente isso que a série realiza ao não apenas inserir corpos negros em histórias já existentes, mas alterar o ponto de vista a partir do qual o país se imagina.As personagens brancas aparecem frequentemente como risíveis, insensíveis ou violentas, mas quase nunca conscientes disso. E é impossível não reconhecer nessa dinâmica os comentários que inevitavelmente surgem quando alguém fala sobre racismo: a redução do problema a casos individuais, a recusa das estruturas, a ideia de que tudo não passa de “impressão”, exagero ou vitimismo. Muito provavelmente, bastará abrir os comentários deste texto para encontrar alguns exemplos.Mais do que “necessária”, esta discussão é inevitável. Ela acontece mesmo quando negada. Por isso, iniciativas como Café Kwanza, criada por Matamba Joaquim em 2022, ou agora Novas Narrativas de Caça, tornam-se tão importantes, porque revelam o quanto a televisão portuguesa ainda precisa de espaço para outras perspectivas, outras subjetividades, outros protagonistas.Não há “volta para tua terra” para quem é daqui. Ou há?O episódio CODÉ, de Cláudia Semedo (e aqui meu conselho de amiga é que o espectador prepare o lenço antes de ver) é arrebatador justamente pelas camadas do não dito que a violência colonial produziu entre gerações. A delicadeza da realização e das interpretações mostra algo que esquecemos com frequência, que televisão também pode ser arte.Foi impossível não me lembrar da conversa entre Grada Kilomba e Mano Brown no Mano a Mano, essa sensação de pertencer e não pertencer ao mesmo tempo, mas também a necessidade de afirmar que “somos daqui”.LIMBO, de Fábio Silva, toca exatamente nessa ferida. “Portugal não é o nosso país” diz uma das personagens, mas como não? Há ali uma pergunta sem resposta simples. O que significa habitar uma língua, uma história e um território que foram construídos sobre a violência colonial?E o próprio episódio tem uma resposta. Duríssima, inexorável, devastadora para quem se apaixona pelos personagens profundamente carismáticos. Impossível não pensar em Odair Muniz. O repentino do acontecimento é de uma violência atroz, junto do acontecimento em si. Espero que em breve possamos ter outras opções de respostas a essas questões sobre o pertencimento negro em Portugal.Sobre isso, fiquei pensando depois de ver a série: será que também na ficção precisamos continuar vendo tantos corpos negros morrerem, serem violentados, traumatizados? Já não basta o sangue negro derramado na vida real? Mesmo quando denunciam o racismo, muitas obras continuam imaginando corpos negros apenas através da dor.Queremos corpos negros vivos. Queremos corpos negros apaixonados, banais, contraditórios, felizes. A disputa política também acontece no campo do imaginário. Talvez por isso Recursos Humanos, de Gisela Casimiro, produza um prazer tão específico. Sem revelar demasiado, há naquele episódio uma espécie de vingança pela linguagem, digna de Jordan Peele.O manancial de histórias a serem contadas, perspectivas possíveis, respostas distintas para as mesmas violências estruturais, é tão grande, que espero sinceramente que haja uma segunda temporada e/ou mais séries e filmes produzidos e pensados por pessoas negras em Portugal. Já vimos que talentos não faltam.Repito frequentemente nas minhas aulas de dramaturgia que “vingança de artista é criar”. Existe algo de profundamente catártico quando vemos artistas transformarem violência histórica em linguagem, imagem, ficção, deslocamento. E é isso que Novas Narrativas de Caça é, uma vingança de vários artistas reunidos, das boas. Tomara que a minha professora de natação assista.
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