Mobilidade: olhar à frente

Cartas ao director

Mobilidade: olhar à frente

Participei, recentemente, no Portugal Railway Summit, um dos mais relevantes encontros nacionais do setor ferroviário. Saí do evento com a convicção de que Portugal tem hoje, na área da mobilidade, um conjunto de profissionais, operadores e decisores públicos genuinamente empenhados em fazer melhor.Falámos de quilómetros, estações, validações e investimento, por serem estes os indicadores que traduzem a capacidade de resposta de um sistema de mobilidade. Aproveito para dar aqui nota de que a Metro do Porto traz para esta conversa números que nos orgulham: 2025 encerrou com 95 milhões de validações; com a entrada em operação das Linhas Rosa e Rubi, acrescentaremos dez quilómetros à rede; e, com as quatro novas expansões previstas (Gondomar II, Maia II, São Mamede e Trofa), chegaremos aos 161 milhões de validações anuais em 2033, num ciclo de investimento superior a três mil milhões de euros.São números poderosos. Importa, contudo, não perder de vista o essencial: a infraestrutura será sempre um instrumento, nunca um fim em si mesma. Isto, porque há uma métrica manifestamente importante que nem sempre consta nos relatórios: quantas horas da vida consegue um sistema de transportes devolver às pessoas que nele confiam?


O Barómetro da ACP, a que o Jornal de Notícias deu eco, confirmou-nos um dado da maior relevância: cerca de um milhão de habitantes da Área Metropolitana do Porto estão disponíveis para trocar o carro pelo transporte público, se encontrarem frequência, simplicidade e ligações diretas! Eis um voto de confiança que responsabiliza e obriga, todos os que trabalhamos no setor, a apresentar respostas à altura – para as quais os operadores, as autarquias e o Estado precisam de convergir.Em Portugal, a fragmentação da mobilidade é um problema de coordenação. Enquanto cada operador olhar apenas para a sua rede, o transporte público continuará a competir consigo próprio. O que se pede é que cada um olhe além da sua rede, contribuindo para um todo integrado e coerente. Quando aí chegarmos, o transporte público deixará de competir consigo próprio.

Sem compreender profundamente a experiência do passageiro, arriscamo-nos a desenhar soluções tecnicamente robustas e socialmente insuficientes. Também na mobilidade, a tecnologia só faz sentido quando liga pessoas




A excelência na mobilidade depende de três fatores decisivos: intermodalidade física, integração digital e articulação institucional. A primeira exige interfaces bem desenhadas, horários coordenados e transbordos que respeitem o tempo de quem viaja. A segunda constrói-se com bilhética integrada, automação progressiva e sistemas inteligentes capazes de antecipar padrões de procura. A terceira, mais exigente, depende da capacidade de operadores e entidades públicas trabalharem de forma ainda mais integrada.Olho para a expansão da rede no território com orgulho e responsabilidade, por todo o valor que aportará. Construir é a parte mais visível, mas servir bem é muito mais exigente. Sem compreender profundamente a experiência do passageiro, arriscamo-nos a desenhar soluções tecnicamente robustas e socialmente insuficientes. Também na mobilidade, a tecnologia só faz sentido quando liga pessoas. Quer dizer: quando é humanizada.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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