Águas de Gaia? Dinheiro, férias e obras em troca de adjudicações
Um despacho judicial, a que a agência Lusa teve hoje acesso, refere que, entre 2009 e 3 de fevereiro de 2026, um empresário da construção, outro dos 13 detidos na terça-feira pela Polícia Judiciária (PJ) na operação “Águas Turvas”, teve a adjudicação de 98 contratos públicos, de quase 11 milhões de euros, 81 deles celebrados com a ADGAIA, tendo emitido faturas à empresa municipal no montante global de cerca de 8,5 milhões de euros.
A investigação diz que em 2024 e em 2025 este empreiteiro faturou à ADGAIA cerca de 1,8 milhões de euros, representando 73% da sua faturação total, acrescentando que, nestes dois anos, o arguido efetuou levantamentos bancários superiores a 45 mil euros, para supostos pagamentos em numerários aos funcionários detidos, alguns dos quais diretores.
O despacho indica que o empresário pagou almoços e jantares aos funcionários com o objetivo de, alegadamente, os recompensar e para continuar a ser beneficiado em futuras adjudicações.
Entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, este empreiteiro despendeu em almoços e jantares em restaurantes mais de 54 mil euros, 11 mil euros num só restaurante de Matosinhos, distrito do Porto.
O despacho judicial detalha vários almoços e jantares, incluindo de Natal, ao longo destes dois anos, alegadamente pagos pelo construtor aos funcionários da ADGAIA suspeitos, que custaram, por exemplo, 681 euros, 287 euros ou 375 euros.
Um dos episódios descritos aconteceu em 19 de dezembro de 2025, quando o empreiteiro adquiriu garrafas de whisky e outras bebidas licorosas numa garrafeira, no valor de 6.785 euros, e que ofereceu aos funcionários suspeitos que compareceram ao jantar nesse dia.
Descreve também viagens alegadamente pagas pelo construtor a funcionários detidos, nomeadamente a Marrocos e a Roma, em fevereiro e em abril de 2025, que custaram 2.862 euros de 3.364 euros, respetivamente, tendo também suportado, na viagem à capital de Itália, os custos das refeições realizadas pelos três suspeitos, superiores a mil euros.
O construtor é também suspeito de custear refeições familiares dos funcionários detidos.
O empreiteiro é ainda suspeito de disponibilizar, ao longo de 2025, funcionários da sua empresa para executarem obras na casa dos sogros de um dos funcionários, em Vila Nova de Gaia, distrito do Porto, para pintura de paredes, montagem de holofote, vedação de campo de galinhas, colocação de tijoleiras, sendo o custo com o material e remuneração dos funcionários suportado inteiramente pelo construtor.
O MP diz que o material utilizado nos trabalhos em 22 de abril de 2025 pertencia à ADGAIA.
O empreiteiro é também suspeito de pagar/oferecer, durante 2025, a outro dos funcionários detidos, em contrapartida das diligências com vista à adjudicação de obras a seu favor, viagens, despesas e objetos para benefício do funcionário ou do seu agregado familiar.
O construtor é suspeito de pagar à companheira deste funcionário uma viagem ao Brasil para visitar a família, de pagar uma consulta médica de 120 euros a esta mulher e de oferecer um frigorífico, de 390 euros, a esta família. Em dezembro de 2025, terá efetuado compras num hipermercado, de 223 euros, para entregar a esta família, entre as quais, uma carteira de 125 euros para o funcionário.
Na relação com um outro funcionário detido, o empreiteiro ofereceu, ao longo de 2025, vários almoços e jantares, num restaurante em Matosinhos, tendo, alegadamente, entregado a este funcionário quantias em dinheiro, em numerário, de valor ainda não apurado.
O construtor é também suspeito de ter dado mais de 3.000 euros a outro dos funcionários detidos.
Quanto à diretora detida, em contrapartidas dos procedimentos que a suspeita lançou e que se destinavam a ser adjudicados sempre ao mesmo empreiteiro, além de jantares que ofereceu à arguida e ao marido, ao longo de 2025, o construtor executou obras na residência da suspeita, no concelho de Amarante, sendo que tais obras, materiais e custos com funcionários foram integralmente suportadas pela empresa do empreiteiro.
Quanto ao ex-funcionário da ADGAIA detido, a investigação apurou que, em março de 2024, o suspeito, à data diretor da Direção das Águas e Abastecimento (DAA), constituiu uma sociedade à qual se dedicou plenamente a partir de maio de 2025, quando se aposentou.
Segundo o MP, esta sociedade não tem qualquer estrutura empresarial minimamente compatível com o exercício regular de uma atividade económica, não dispondo de trabalhadores nem de meios materiais ou logísticos.
Em 2024 e 2025 esta sociedade apresentou um volume de faturação de quase 1,94 milhões de euros e foi, acredita a investigação, constituída com o propósito de, através dela, o suspeito receber fundos financeiros, que lhe foram pagos por empresários detidos, como contrapartida da manipulação e favorecimento dessas empresas nos procedimentos concursais lançados por DAA, por si gerida até 15 de maio de 2025.
Após se aposentar, a investigação diz que o suspeito manteve a sua esfera de influência e contactos sobre alguns funcionários, particularmente sobre três dos suspeitos.
Os detidos na terça-feira pela PJ são sete funcionários da ADGAIA, três dos quais com cargos de chefia, um ex-funcionário e cinco empresários ligados à construção civil e à venda de materiais.
Em causa está a prática de crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, abuso de poder e branqueamento.
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