Flotilha? França pondera recorrer à justiça por "atos odiosos" de Israel
“Mais do que as imagens, os atos [são] absolutamente odiosos, chocantes” e de condenação “sem reservas, porque são chocantes do ponto de vista humano e chocantes à luz do direito internacional”, declarou o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, perante a Assembleia Nacional, durante a sessão de perguntas ao Governo.
“Uma vez que se trata de cidadãos franceses, não excluímos recorrer à nossa própria justiça relativamente ao conjunto dos atos, tal como pudemos constatá-los neste vídeo”, acrescentou, aludindo os alegados abusos, maus tratos e atos de humilhação cometidos pelas autoridades israelitas contra ativistas da Flotilha Global Sumud.
O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noel Barrot, “vai receber os diferentes advogados envolvidos”, acrescentou.
Lecornu respondia a uma pergunta da líder parlamentar dos deputados ecologistas, Cyrielle Chatelain.
No sábado, Barrot anunciou que a França proibiu a entrada no país do ministro da Segurança Nacional israelita, Itamar Ben Gvir, na sequência da divulgação de um vídeo de ativistas da “flotilha para Gaza” ajoelhados e de mãos atadas, depois de as embarcações terem sido intercetadas em águas internacionais e da detenção no sul de Israel.
Vários destes ativistas denunciaram “violências, abusos e humilhações” infligidos pelas forças israelitas durante a detenção.
Barrot pediu também à União Europeia que aplique igualmente sanções contra Itamar Ben Gvir.
O gesto de Ben Gvir foi criticado no próprio Governo israelita, com o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, a denunciar um tratamento “não conforme com os valores e as normas de Israel”.
O vídeo foi também alvo de críticas do Presidente israelita, Isaac Herzog, que condenou os “atos brutais” contra detidos em Israel por quem acredita que “não têm quaisquer direitos humanos”.
Num discurso contundente, em que também descreveu os colonos violentos na Cisjordânia ocupada como uma “multidão sem lei”, Herzog afirmou ser “proibido abusar dos detidos, por mais desprezíveis que sejam”, bem como “fazer justiça pelas próprias mãos”.
“Estamos expostos a atos brutais por um punhado de pessoas que acreditam que detidos, interrogados e suspeitos não têm direitos humanos”, disse Herzog, num discurso no qual também condenou a violência contra cristãos e muçulmanos.
Na segunda-feira, também o líder da oposição israelita, Yair Lapid, considerou os atos indesculpáveis e contrários ao direito internacional, pedindo uma investigação.
“O abuso nunca é uma boa ideia, e eu nunca o apoio”, afirmou Lapid, numa conferência de imprensa com meios de comunicação social internacionais.
Lapid, que deverá enfrentar Netanyahu nas eleições legislativas previstas para o outono, em coligação com o antigo primeiro-ministro Naftali Bennett, defendeu que “a democracia tem um preço” e que parte dele “é o respeito pelo direito internacional”.
“O que os agentes israelitas fizeram aos detidos foi indesculpável e deve ser investigado”, afirmou.
ONU, União Europeia, Portugal, França, Itália, Reino Unido, Polónia, Estados Unidos, Brasil e Irão, entre outros países e organizações, condenaram igualmente os atos de humilhação cometidos sobre os ativistas.
Cerca de meia centena de navios partiram da Turquia, em 14 de maio, para realizar uma nova tentativa de romper o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza, devastada por dois anos de guerra.
As autoridades israelitas anunciaram a detenção de 430 ativistas a bordo das embarcações, em águas internacionais, tendo todos sido expulsos de Israel na quinta-feira.
Leia Também: Carney pede investigação sobre maus-tratos aos elementos da flotilha



Publicar comentário