Codescobridor do Ébola estima que epidemia pode ser controlada brevemente
O médico, que é também o primeiro cientista conhecido a ter contraído o vírus e sobreviveu a este, recorda que este é o 17.º episódio de Ébola no seu país e que isso o fez desenvolver “experiência importante sobre como o enfrentar”.
“Temos experiência neste âmbito. A epidemia atual será resolvida com a ajuda dos nossos parceiros e do Governo, e é possível que em dois ou três meses fique totalmente contida”, disse numa entrevista à televisão pública suíça RTS o dirigente do Instituto Nacional de Investigação Biomédica em Kinshasa, capital da RDCongo, nação vizinha de Angola.
Muyembe considera que a reação internacional à atual epidemia reflete o temor deixado pela pandemia da covid-19 e o facto de ter ocorrido quando mal se tinha saído da crise em torno do surto de hantavírus num navio de cruzeiro.
Em 1976, uma doença misteriosa declarou-se na localidade de Yambuku (RDCongo, então Zaire) e Muyembe foi o primeiro perito em virologia a deslocar-se ao local, a examinar os doentes e a recolher amostras de sangue e de fígado “em condições rudimentares, sem luvas nem vestuário de proteção”, recordou o próprio quando a Universidade da Sorbonne (Paris) lhe concedeu o grau de Doutor ‘Honoris Causa’ em 2025.
“A minha sobrevivência é um milagre, tal como a dos técnicos que realizaram as análises nas condições básicas do nosso laboratório na universidade”, manifestou, na altura.
Esta vaga de Ébola é da estirpe Bundibugyo e ainda não tem tratamento.
Muyembe sustenta que, apesar desta situação delicada, se pode conter a epidemia, da qual há mais de 900 casos suspeitos e 200 mortos.
Para o perito, a inexistência de uma vacina ou tratamento específico para a estirpe Bundibugyo não deve ser vista como uma fatalidade que impedirá controlar a sua propagação.
O médico recorda que, no passado, foi possível controlar vagas, nomeadamente a causada pela estirpe Zaire, antes de se desenvolver uma vacina.
“Antes de 2018, foram as medidas de saúde pública, como o isolamento dos doentes, os internamentos em centros de segurança e a proteção do pessoal de saúde nos hospitais, que permitiram quebrar a cadeia de transmissão e controlar as epidemias”, disse.
Por outro lado, frisou que a estirpe atual é menos mortal que a do Zaire, apelando a que se informe “adequadamente a população, comunicando os riscos e envolvendo as comunidades para uma participação global na resposta sanitária”.
“Também devem ser estabelecidos sistemas de deteção rápida e centros de tratamento”, defendeu.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reviu o risco sanitário para a RDCongo, que agora considera “muito alto”, bem como para um grupo de dez países, nomeadamente Angola, onde agora o risco é “alto”. Para o resto do mundo, o risco continua a ser baixo.
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