Papa exorta mundo a “abrandar” IA na sua primeira encíclica e recusa ideia de “guerra justa”

Papa exorta mundo a “abrandar” IA na sua primeira encíclica e recusa ideia de “guerra justa”

Papa exorta mundo a “abrandar” IA na sua primeira encíclica e recusa ideia de “guerra justa”

O Papa Leão XIV exorta os governos a abrandarem o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial (IA) na sua primeira encíclica, divulgada nesta segunda-feira, alertando que estes disseminam desinformação, privilegiam o conflito e correm o risco de conduzir o mundo por um caminho de guerra sem fim.O primeiro pontífice norte-americano, que despertou a ira do Presidente dos EUA, Donald Trump após criticar a guerra do Irão, faz uma série de apelos aos líderes mundiais no extenso texto, pedindo-lhes que a propriedade dos dados de IA não seja deixada exclusivamente em mãos privadas, para que os decisores políticos protejam os direitos dos trabalhadores e mantenham as crianças a salvo da tecnologia. E insta ao arrefecimento da concorrência entre as empresas de IA. “O que é necessário é um envolvimento político mais activo, capaz de abrandar o ritmo quando tudo está a acelerar”, lê-se no texto, intitulado Magnifica Humanitas (Humanidade Magnífica).O Papa apela à criação de “quadros jurídicos robustos, supervisão independente, utilizadores informados e um sistema político que não abdique da sua responsabilidade”.As encíclicas são documentos por via dos quais o pontífice se dirige aos 1,4 mil milhões de membros da Igreja, informando-os do pensamento da Igreja Católica relativamente a diferentes matérias. Este texto tem vindo a ser elaborado praticamente desde a escolha de Leão como Papa, há pouco mais de um ano.Papa repudia teoria da “guerra justa”O documento, que tem a IA como tema principal, também condena o número de guerras que assolam o mundo, lamenta o enfraquecimento das organizações multilaterais e alerta que os lucros da indústria de armamento são uma força motriz por detrás dos conflitos. “Os últimos 60 anos foram marcados por conflitos de uma brutalidade espantosa, afectando frequentemente as populações civis em grande escala”, diz Leão.“A humanidade está a cair numa cultura violenta de poder, onde a paz já não aparece como uma responsabilidade a assumir, mas como um intervalo frágil entre conflitos”, sublinha. Leão XIV também faz uma das declarações mais claras até agora por parte de um Papa, repudiando a teoria da guerra justa, uma doutrina que a Igreja tem usado pelo menos desde o século V para avaliar conflitos globais.A doutrina, que geralmente defende que as guerras só devem ser travadas para se defender contra uma agressão, também tem sido invocada por responsáveis da Administração Trump, incluindo o vice-presidente J.D. Vance, católico convertido, para defender a guerra contra o Irão.“A teoria da ‘guerra justa’, que tem sido utilizada com demasiada frequência para justificar qualquer tipo de guerra, está agora ultrapassada”, escreve. “O uso da força, da violência e das armas reflecte uma pobreza relacional que tem sempre consequências desastrosas para as populações civis.”Leão também expressa preocupação com a possibilidade de os líderes iniciarem guerras para distrair os cidadãos das questões internas. “Não podemos excluir a possibilidade de que alguns líderes possam considerar o conflito armado como uma forma eficaz de desviar a atenção dos problemas internos e uma ferramenta cínica para gerir as dificuldades”, aponta.Papa lamenta papel da Igreja na escravaturaLeão XIV invoca especificamente o seu antecessor Leão XIII, que publicou uma famosa encíclica em 1891 apelando a melhores salários e condições para os trabalhadores durante a Revolução Industrial. Leão XIV condena aquilo a que chamou “novas formas de escravatura” sofridas pelas pessoas que cuidam dos sistemas de IA e pelos operários fabris que produzem os dispositivos tecnológicos, como computadores e smartphones, nos quais a IA é utilizada. “Em algumas regiões do mundo, crianças e adolescentes trabalham em condições perigosas, triturando os materiais dos quais são extraídos elementos de terras raras”, constata.“Os corpos destas pessoas ficam marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterruptamente”, afirma, considerando que “esta realidade desafia profundamente a consciência moral do nosso tempo”.O Papa também reconheceu que a Igreja Católica não condenou veementemente a escravatura transatlântica até ao século XIX e apresentou um pedido de desculpas pessoal. “Isto constitui uma ferida na memória cristã”, escreve. “Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”Papa exorta mundo a abordar riscos da IALeão, que afirma no início da carta que pretendia dirigir-se aos católicos e a todas as pessoas de boa vontade, diz que a sociedade deve enfrentar “questões cruciais” sobre a forma como a IA se está a desenvolver e a orientação geral da liderança global.Invocando a história bíblica da Torre de Babel — onde uma tribo humana, movida pelo orgulho, tenta construir uma torre alta o suficiente para alcançar o céu, irritando Deus —, o Papa diz que a História mostra o risco de qualquer empreendimento que “aspire a alcançar o céu sem a bênção de Deus”.“Com o coração de um pastor e de um pai, peço a todos que abandonem a construção de mais uma Torre de Babel e unam forças para edificar o bem comum”, apela, exortando o mundo a não desistir de abordar os possíveis riscos dos sistemas de IA.

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