Espécies invasoras aquáticas causam prejuízos de 363 mil milhões por ano
As espécies invasoras dos ecossistemas aquáticos provocam por ano 363 mil milhões de euros de prejuízos e, parte deles, podem dever-se a inocentes gestos, alerta a Paula Chainho, professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esse valor, explica, diz respeito apenas aos custos reais para as populações, não estando incluídos os prejuízos, incalculáveis, para os ecossistemas.A Semana sobre Espécies Invasoras (#SEI2026) teve início no sábado em Portugal e Espanha e decorre até dia 31 de Maio. O objectivo da iniciativa, lançada por várias entidades, incluindo a Rede Portuguesa de Estudo e Gestão de Espécies Invasoras, é sensibilizar para o problema. Paula Chainho recorda que o impacto das espécies invasoras no meio aquático é particularmente preocupante, uma vez que em terra são a quinta ameaça para a perda de biodiversidade ma, no oceano, são a segunda causa. A professora, que também é investigadora no MARE — Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, especializou-se em invasões biológicas em ambiente marinho, em particular sistemas estuarinos e costeiros.Do siluro à minhoca marinhaO MARE e o ARNET — Rede de Investigação Aquática assinalam a semana de sensibilização com uma campanha nacional de alerta aos cidadãos sobre as maiores ameaças biológicas nos ecossistemas aquáticos em Portugal.As tartarugas exóticas em lagos e rios, a minhoca marinha coreana, o peixe gigante siluro ou a alga castanha asiática que começou a “inundar” praias em Portugal, todas espécies invasoras, vão ser temas da campanha, um por dia, culminando a iniciativa com um alerta global sobre as invasoras.Paula Chainho explica que uma espécie não indígena, introduzida fora da sua área de distribuição nativa, pode tornar-se invasora ou não, dependendo das condições que vai encontrar no sítio onde é introduzida. Quando se torna invasora pode causar “impactos muito graves”.Os investigadores e as entidades envolvidas sabem disso mas muitas vezes a população de forma geral não sabe; as pessoas não imaginam que podem ser elas as causadoras de um impacto grave, lembra a cientista.“Isso é que nos motivou a lançar esta campanha, no sentido de alertar o público em geral, para um problema real e em que cada um pode ter um papel”, afirma a especialista, acrescentando que qualquer cidadão pode ter uma “acção preventiva”.“Se alguém compra uma tartaruga e ela cresceu demasiado o impulso é largá-la na natureza, em rios ou lagos. A intenção pode ser boa, mas nos rios e nos lagos causam graves impactos sobre as espécies nativas. Isso está a acontecer por exemplo em duas espécies de cágado, nativas, que estão ameaçadas”.
Campanha do MARE alerta para o risco das espécies invasoras
MARE
Também o isco vivo chamado “ganso coreano” deve ser deitado no lixo e nunca no mar, alerta Paula Chainho.Por norma as espécies invasoras têm grande fecundidade e reproduzem-se mais cedo do que as nativas, têm grande tolerância ambiental às condições onde se desenvolvem, tolerando por exemplo grandes variações de temperatura, de salinidade ou presença de poluentes.E quando encontram condições favoráveis proliferam, causam impactos nas outras espécies e nos ecossistemas e muitas vezes também impactos económicos e sociais – os tais 363 mil milhões de euros, calculados pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, na sigla em inglês), o principal órgão científico de avaliação da biodiversidade.Na Lagoa de Albufeira, em Sesimbra, por exemplo, uma invasão biológica de tunicados, organismos marinhos, colonizou a produção de mexilhão e causou elevada perda de produção, recorda Paula Chainho.O caso da amêijoa asiáticaE não há boas espécies invasoras? A especialista diz que não. Mas admite que algumas possam ter alguns impactos positivos, na perspectiva humana e não do ecossistema.A amêijoa japonesa é um exemplo, neste momento a espécie dominante no estuário do Tejo e com impacto positivo do ponto de vista económico. Ou o lagostim vermelho, que veio alimentar uma população de cegonhas que estava ameaçada por falta de alimento.No caso da amêijoa a introdução foi intencional, e no caso do siluro, um peixe grande de água doce, também. “Porque é um troféu de pesca apreciado”.Mas outras espécies são introduzidas sem intenção, por pescadores ou produtores de aquacultura, por navios com incrustações nos cascos ou água de lastro, por particulares que devolvem uma espécie à natureza, até pelos próprios investigadores. “Não há um culpado, somos todos”.Paula Chainho enfatiza a importância de prevenir introduções especialmente nos mares. Porque em terra, quando uma invasora é detectada, podem tomar-se medidas precoces, mas no meio aquático quando é identificada uma nova espécie já ela provavelmente está instalada.Na próxima semana, na campanha do MARE/ARNET, serão divulgados cartazes e serão usadas as redes sociais para mostrar que o comportamento de cada um pode ser a porta de entrada para muitos invasores.



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