Escritora brasileira transforma em poesia a dificuldade de ser mãe e imigrante

Escritora brasileira transforma em poesia a dificuldade de ser mãe e imigrante

Escritora brasileira transforma em poesia a dificuldade de ser mãe e imigrante

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A mudança para Portugal, em 2018, e a maternidade vivida longe da família foram fontes de inspiração para o novo livro da escritora e poeta brasileira Luciana Soares, 41 anos. Nascida em Fortaleza, ela lança Tudo Que Colhi No Fundo Do Mar (editora Urutau), no próximo dia 30 de maio, às 17h, na Greta Livraria, em Lisboa. Em 12 de junho, ela participa também da Feira do Livro de Lisboa (FLL), com leituras e sessão de autógrafos, a partir das 19h. A FLL começa nesta quarta-feira, 27 de maio, e termina em 14 de junho, no Parque Eduardo VII.“É um livro que nasceu junto com o meu processo de gravidez, principalmente nos dois primeiros anos desse meu mergulho na maternidade. Desse encantamento que eu senti pelo meu corpo, porque eu vi o quanto ele é potente, o quanto consegue se expandir e gerar uma nova vida”, diz Luciana. “Mas, com o tempo, eu vi que a obra falava muito mais do que isso”.A escritora, que faz questão de frisar que não romantiza a maternidade (“Às vezes, há uma sensação de loucura de tanto cansaço”), também aponta que o livro aborda a dificuldade que é ser mãe longe da terra natal, realidade que muitas imigrantes, como ela, enfrentam em Portugal.“Tenho o meu companheiro, mas ele é a minha única família em Portugal. Por isso, eu senti muito medo de ser mãe fora do meu lugar de origem”, conta. “A maternidade é sempre solitária, mas quando a gente é imigrante é algo que torna-se mais pesado. Eu não tenho a rede de apoio que teria no Brasil e ainda tenho que criar a minha filha numa cultura que é dela, porque ela nasceu em Portugal e o pai é português, mas que não é a minha cultura. Então, como eu me conecto com tudo isso?”, pergunta, que viu na arteterapia uma tábua de salvação. Inclusive, para enfrentar a xenofobia.“As pessoas falavam que eu vim dar o ‘golpe da barriga’. Infelizmente, tive que escutar isso. Mas a arteterapia me curou de muita coisa. O que eu criei nesse livro me cura de muita coisa também”, diz a escritora, mãe de Aurora, de dois anos.Relacionamento abusivoO título da publicação, Tudo Que Colhi No Fundo do Mar, frisa Luciana, também surgiu dessa mistura de sentimentos e das sessões de arteterapia. “Não foi uma gravidez planejada. Eu já não achava que ia ser mãe, então, já não estava mais nos meus planos. Só que, quando fiquei grávida, meu pai entrou em depressão por causa da pandemia. Então, a arteterapia que me ajudou muito. Eu comecei a enfrentar os meus medos. Inclusive o medo da morte do meu pai, o que de fato aconteceu”, relata. “Muitos dos poemas e o próprio nome do livro surgiram devido às sessões de arteterapia. Eu me sentia no fundo do mar e precisava ter fôlego para sair daquele lugar”.Ela conta que, desde a infância, sempre gostou de ler e de escrever. Mas foi em 2015, quando terminou um relacionamento abusivo, ainda morando no Brasil, que ela viu a necessidade de pôr no papel o que estava acontecendo na sua vida. “Eu me divorciei de uma pessoa com quem fiquei dez anos. E foi um relacionamento com muita violência física e psicológica. Foi algo bastante difícil que até hoje repercute em mim”, desabafa. “Mas, como eu sempre gostei muito de escrever, naquele momento, senti uma urgência de fazer isso. Comecei a escrever sem parar. Hoje, vejo que a escrita me ajudou a organizar os meus sentimentos e a me entender como mulher”.
Formada em jornalismo na Universidade Federal do Ceará (UFC), com pós-graduação em marketing, Luciana veio para Portugal fazer mestrado em edição de texto, na Universidade Nova de Lisboa. Ela já estava acostumada a viver fora, no caso, na Itália, onde a família tem uma agência de turismo, em Florença.“Eu ficava entre o Brasil e a Itália. Agora, desde 2018, eu estou de vez em Portugal, onde quero fazer mais um mestrado em estudo de gênero”, afirma ela, que, em 2020, lançou seu primeiro livro, Poesias Mareadas, também pela Urutau. “Tenho mais dois poemas publicados em Volta Para Tua Terra, que é uma antologia de escritores imigrantes, contra esse movimento de extrema-direita que está crescendo na Europa”, conta.
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