O Sporting foi passear e o Torreense ficou com a Taça
“Não vamos passear ao Jamor.” Foi a declaração de intenções de Luís Tralhão, treinador do Torreense, perante a perspectiva de enfrentar o Sporting na final da Taça de Portugal. A equipa de Torres Vedras, que luta ainda pela subida à I Liga, não se sentia obrigada a ficar com a taça, mas tinha esse sonho. Não foi, de facto, passear ao Jamor, ao contrário dos “leões”, que foram displicentes, perdulários e justamente derrotados, por 2-1, após prolongamento. Para o Sporting, é mais uma “daquelas” finais perdidas – a que se juntam a de 2012 com a Académica e a de 2018 com o Desp. Aves. Para o Torreense, é uma conquista histórica. É a primeira do clube e a primeira vez que uma equipa de escalão secundário fica com ela.Uma época nem muito boa, nem muito má. Uma época que ainda podia ser espectacular. Eram assim os estados de espírito, respectivamente, de Sporting e Torreense na entrada para o relvado do Jamor. Sem o objectivo principal alcançado, os “leões” procuravam ainda um sabor de conquista em 2025-26, os torreenses tinham à sua frente a cereja da taça para colocar em cima do (ainda não garantido) bolo da promoção. Mas esta era uma final potencialmente desequilibrada, das mais desequilibradas na história da competição, uma das melhores equipas da Europa (top 8 da Champions), contra uma das melhores equipas da II Liga portuguesa.
Um mundo de diferenças em tudo, até na ocupação das bancadas do Estádio Nacional – 70% de verde e branco, 30% para os “blaugrana” do Oeste. Mas os estatutos não ganham jogos, nem a história, nem o número de adeptos, e, quando há desequilíbrio de forças, geralmente há um que se agiganta e outro que se apequena. Quando uma equipa dá tudo o que tem e a outra não, as coisas podem equilibrar-se. Nunca no futebol português uma equipa de fora da primeira divisão tinha vencido uma final. O Torreense, que anda longe do escalão máximo há 24 anos, podia bem ser a primeira.Poucas mudançasRui Borges lançou em campo algo parecido à melhor versão do Sporting de acordo com o que tinha disponível – dos que entraram de início, só Vagiannidis e Quaresma não seriam indiscutíveis no “onze”. De Torres Vedras, veio um “onze” com poucas mudanças em relação à equipa que jogou com o Casa Pia a meio da semana – Luís Tralhão optou por Costinha no meio-campo e Zohi como ponta-de-lança.
Esperava-se que o Sporting entrasse a dominar e a manter o Torreense preso no seio meio-campo, mas não foi isso que aconteceu. Logo aos 3’, os torreenses tiveram uma subida interessante pela esquerda protagonizada pelo rapidíssimo Dany Jean que terminou com a conquista de um pontapé de canto. Daquele lado, o lateral Luiz Hernández meteu a bola na área, Leo Silva desviou para o segundo poste e Zohi desviou para a baliza. Vantagem para a equipa de Torres Vedras, a premiar a ousadia e a aproveitar um dos pontos fracos do Sporting, as bolas paradas defensivas.Se foi um golo fortuito ou não, a prova para qualquer um dos casos estaria na reacção das equipas. É verdade que o Torreense não atacou muito depois do golo, mas foi-se mantendo sólido e sempre a espreitar o contra-golpe, o Sporting demorou muito tempo a entrar no jogo, acumulando erros pouco característicos na circulação de bola e até na leitura defensiva de determinados lances. Aos poucos, os “leões” lá conseguiram empurrar o adversário para a sua área, mas era mais consentido do que outra coisa.
Mesmo sem demonstrar de forma inequívoca a tal teórica superioridade, o Sporting teve várias hipóteses de empatar ainda antes do intervalo. Aos 20’, uma bola conquistada por Vagiannidis na direita foi ter com Morita na área. O japonês fez um belo passe para Pedro Gonçalves, que, perante o guarda-redes Lucas Paes, atirou por cima. Aos 33’, foi outra vez Pedro Gonçalves a ter o golo nos pés, mas acertou no poste. E, aos 41’, Suárez também perdeu um frente-a-frente com o guarda-redes brasileiro do Torreense.Paciência contra resistênciaO Torreense agarrava-se ao seu sonho da taça como podia e aguentou-o até aos primeiros minutos da segunda parte, até ao momento em que o seu central Ali-Diadié, pressionado junto à linha de fundo, mandou a bola para onde não podia, para os pés de Suárez. O colombiano captou, rodou sobre o seu marcador e atirou a contar – quinto jogo consecutivo a marcar, 38.º da temporada e um grande suspiro de alívio para o Sporting.
Agora, o jogo entrava num combate entre a paciência de um e a resistência de outro, mas rapidamente se transformou num jogo de risco zero. O Sporting ainda meteu a bola na baliza – Geny estava em fora de jogo – e Hjulmand protagonizou duas situações perigosas. Mesmo a fechar os 90’, o Torreense quase marcou numa rara aproximação à baliza de Rui Silva – Diomande tentou um corte, mas a bola bateu na perna de André Simões e a bola passou a rasar o poste.Nada mudou e o jogo avançou para algo que ninguém quer nestas circunstâncias, especialmente o Torreense, que ainda terá o jogo da promoção com o Casa Pia na quinta-feira – mais 30 minutos de jogo. O prolongamento começou com um golo anulado ao Torreense – Ali-Diadié marcou na sequência de uma bola parada, mas o homem da Mauritânia estava fora-de-jogo. E Luis Suárez foi duplamente perdulário nos primeiros 15 minutos do tempo extra.Na segunda parte, o Sporting tentou sufocar, mas o Torreense conseguiu respirar num contra-ataque mortal aos 108’. Seidy conseguiu passar por Inácio e, quando se preparava para encarar Rui Silva, foi agarrado por Maxi. Penálti para o Torreense, vermelho para o uruguaio e Stopira, o veterano capitão do “Orgulho do Oeste”, avançou para a história. Não falhou o encontro. O tiro do cabo-verdiano foi certeiro e o Torreense, depois de resistir até ao limite das suas forças, ainda resistiu mais um bocadinho. Foi feliz. E ainda pode ser mais.



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