Sonho europeu na fila de espera

Sonho europeu na fila de espera

Sonho europeu na fila de espera

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Em Portugal, o sonho europeu tem cada vez mais cara de senha, agendamento e fila de espera. Fila para conseguir documento. Fila para regularizar residência. Fila para atendimento. Fila para existir legalmente. Lembro da primeira vez que ouvi um brasileiro, pai de um amigo do meu filho, dizer que se mudaria para Portugal. Era 2016, e estávamos no Clube Federal, no Leblon, no Rio de Janeiro. Quando perguntei o motivo, a resposta veio sem hesitação: segurança, estabilidade, qualidade de vida e escola pública de excelência.Aquela conversa ficou na memória. Talvez ali tenha surgido, ainda sem que eu percebesse, a ideia que me trouxe para Lisboa cinco anos depois. Para muitos imigrantes, especialmente brasileiros, Portugal continua sendo uma porta deentrada para a Europa e para uma vida mais digna. Mas a experiência de quem chega nem sempre acompanha a expectativa gerada antes da mudança. Enquanto parte do discurso político insiste em afirmar que o país precisa deimigrantes, a realidade encontrada por muitos revela um sistema lento, sobrecarregado e incapaz de acompanhar a própria demanda que Portugal ajudou a criar. O resultado é um número crescente de pessoas que trabalham, pagam impostos, movimentam a economia, mas ainda vivem sem algumas garantias básicas.O mais contraditório é que a maioria desses imigrantes ocupa espaço nos setores que sustentam o cotidiano português. Estão nos restaurantes, aplicativos de entrega e transporte, na construção civil, e em serviços nos quais historicamente há dificuldade de contratar trabalhadores, porque são funções que, muitas vezes, os portugueses não querem exercer. Ainda assim, muitos desses estrangeiros continuam a ser tratados como temporários e inconvenientes, apesar da intenção clara de construir vida no país.Existe um desgaste emocional que não aparece nas estatísticas. A imigração vende a ideia de futuro, mas frequentemente entrega uma realidade burocrática e solitária. Há pessoas que esperam meses, às vezes anos, para conseguir documentos essenciais. Profissionais qualificados aceitam empregos muito abaixo da própria formação porque o diploma não é reconhecido, o processo não anda ou a oportunidade não chega. Ao mesmo tempo, o preço dosaluguéis empurra muita gente para quartos pequenos e caros, que podem custar mais de 500 euros.Apesar de todas essas dificuldades, milhares continuam chegando. Porque, para muitos, a realidade deste lado do Atlântico ainda parece melhor do que a deixada para trás. E talvez esteja aí a reflexão mais desconfortável: a de seruma mão de obra necessária, mas nem sempre reconhecida de fato. Nenhum país se torna verdadeiramente desenvolvido quando depende do trabalho do imigrante, mas trata sua dignidade como assunto secundário. E Portugal ainda parece resistir em aceitar essa dependência e organizar, com mais rapidez e eficiência, a vida de quem veio para ficar.Há também desinformação, demora e falta de preparo em parte dos atendimentos públicos. Posso dizer, sem exagero, que esperei mais horas em filas portuguesas do que em toda a minha vida no Brasil. Ainda assim, não escrevo isso como reclamação ou amargura. Hoje estou em situação regular no país e encontrei aqui muito do que buscava: mais segurança, tranquilidade e tempo para gerir a minha vida. Por isso, quando aponto falhas, sinto-me como um cliente que chama o gerente para falar sobre um restaurante. Não porque não gostou do lugar, mas justamente porque pretende voltar.
App PÚBLICO BrasilUma app para os brasileiros que buscam informação. Fique Ligado!

Publicar comentário