Cinema brasileiro quer conquistar público global com terror e ficção científica
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Durante o Festival de Cannes, que terminou ontem, sábado, dia 23 de maio, sete longas-metragens de horror, ficção-científica e suspense foram apresentados na sessão Fantastic Cuts, que integra o VDF Showcase, diante de curadores, programadores de festivais e agentes de vendas internacionais, que acontece pelo segundo ano consecutivo no Marché du Film — e tem um detalhe que dispensa qualquer rodeio: cinco dos sete títulos exibidos eram brasileiros.A informação de que a maioria dos filmes são made in Brazil parece pequena, mas não é. No contexto de Cannes 2026, onde o Brasil chegou sem um único longa nacional disputando a Palma de Ouro (Fjord, do romeno Cristian Mungiu levou a Palma de Ouro na 79ª edição do festival), a ausência no tapete vermelho de filmes nacionais parece um hiato — e, ao mesmo tempo, força a indústria brasileira a fazer aquilo que durante anos parecia fora do horizonte: vender aquilo que tem apelo comercial. E cinema de gênero é, no mercado global, o produto mais facilmente exportável que existe. A Coreia do Sul descobriu isso. A Indonésia, o México e a Argentina também. Agora é a vez do Brasil.E há um precedente poderoso para tal, já que o país tem um histórico de ter talentos lendários neste segmento do terror — basta lembrar José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e o boom recente representado por As Boas Maneiras (2017), de Marco Dutra e Juliana Rojas, Cidade; Campo (2024), também de Rojas e premiado em Berlim, ou pela aproximação deste segmento que Kleber Mendonça Filho buscou fazer em Bacurau (2019) — todos sempre tiveram um problema em comum: o mercado.A VDF Connection procura ser, em parte, uma resposta a essa questão, que assola o cinema nacional em todos os seus graus e qualidades. É uma boutique de consultoria, agência de vendas e plataforma de capacitação fundada em São Paulo e Buenos Aires por Mônica Trigo, curadora brasileira com longo trânsito por festivais ibero-americanos, e pelo argentino Javier Fernández, ex-diretor do programa Blood Window dentro do Ventana Sur.A empresa nasceu em 2025 e estreou no Marché du Film no mesmo ano. Hoje, na segunda edição, apresentou quinze filmes divididos em duas seções: Fantastic Cuts e do First Look, que reuniram ficção autoral, documentário e linguagens híbridas — também com maioria brasileira.“Acreditamos que esta edição oferece um panorama particularmente estimulante, com obras que dialogam com diferentes gêneros, sensibilidades e abordagens de produção, mas que compartilham o mesmo compromisso com o risco, a identidade e a projeção internacional”, contam Trigo e Fernández.Nenhum brasileiroO recorte é estratégico. No mesmo dia em que a Fantastic Cuts acontecia, no Palais K, duas salas adiante, a Frontières Platform — programa de coprodução genérica conduzido pelo Festival Fantasia, de Montreal, em parceria com o Marché du Film — chega à sua décima edição com sete projetos em fase de financiamento e seis em pós-produção. Coreanos, jamaicanos, indonésios, espanhóis e holandeses dividem o palco. Nenhum brasileiro. O fato sintetiza o estado da arte: o cinema de gênero é, hoje em Cannes, um circuito estruturado com salas dedicadas, agentes especializados e um vocabulário próprio de negócios — e o Brasil ainda está aprendendo a falar este dialeto, para conseguir se comunicar com os seus pares mundo afora. Sendo assim, o VDF Showcase é, por enquanto, a porta que se abre.Dos cinco filmes brasileiros apresentados, Covil (Beyond the Nest), de Rodrigo Lages, é o que chega com a trajetória mais consolidada. O longa venceu a categoria Melhor Filme Nacional na 22ª edição do Fantaspoa — Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o maior do gênero na América Latina, que em 2026 passou a integrar oficialmente o circuito do Prêmio Méliès de Prata, tornando-se o primeiro festival fora da Europa a conceder a honraria.É um suspense psicológico estrelado pela atriz Vitória Strada, conhecida do grande público por novelas da Globo, que assina também como produtora associada ao lado do marido Daniel Rocha, com quem divide a cena central. Covil fechou distribuição com a Globoplay e estreia no Telecine no dia 20 de junho. A VDF Connection cuida das vendas internacionais.Cinema de gêneroAs outras quatro obras desenham um mosaico muito interessante: Under the Broken Sky, de Luciana Malavasi, mergulha numa comunidade isolada onde a fronteira entre cuidado e controle se dissolve — leitura de gênero sobre vulnerabilidade feminina e cura espiritual, temas que a diretora vem trabalhando há anos. Dark Corners 2: Safira’s Curse, de Henrique Nuzzi, é continuação de uma franquia de horror que tenta o que poucas cinematografias latinas tentam: criar IP genérica brasileira reconhecível, no padrão americano. The Taxidermist, de Paulo M. Nascimento (coprodução Brasil–Estados Unidos), é slasher gore situado numa quitinete do Brooklyn.E Paradiso, estreia do pernambucano Davi Revoredo, é uma distopia em que mortos viram réplicas digitais corporativas — ficção científica de baixo orçamento feita com equipe inteira da cena underground da cidade do diretor, e que levou quase uma década até sair.Além disso, há um ponto em comum aos cinco filmes e que pode parecer estranho à primeira vista: nenhum deles passa pela máquina dos grandes nomes do cinema brasileiro. Não há Wagner Moura, nem Fernanda Torres. Não há Walter Salles, não há Kleber Mendonça Filho, nem Fernando Meirelles ou José Padilha na ficha técnica. Estamos falando de outra camada — produtoras como AVNOVE, Nuzzi Film, Pulsate Filmes, Com Arte Cultural, Accorde Filmes —, com orçamentos menores e objetivo mais comercial.E esse é, justamente, o ponto: o cinema brasileiro que ganhou Oscar com Ainda Estou Aqui e que arrebatou dois prêmios em Cannes com O Agente Secreto fala uma língua: a do filme de autor. Já o cinema que tenta entrar hoje pela porta J do Palais fala outra: a do streaming, do prime time, do espectador que aceita tomar sustos, se isso for bem feito e se esse thriller for muito bem tocado. As duas economias se tocam, mas não se confundem: são universos distintos.Diferença estruturalA pergunta que fica para os profissionais da indústria do cinema e as distribuidoras presentes ao Marché du Film é se tais realidades conseguem coexistir. O modelo de distribuição do cinema de gênero geralmente é: festival especializado (Fantaspoa) → mercado internacional (Cannes) → estreia em plataforma (Netflix/Globoplay/Amazon etc.), tudo em pouco mais de três semanas. Não há sala de cinema na rota, e isso diz muito sobre o presente da exibição cinematográfica brasileira.Diz também, indiretamente, sobre como o capital privado nacional — sobretudo o da Globo Filmes e suas empresas — tem ocupado o vácuo deixado por um circuito de salas que não conseguiram se reerguer pós-pandemia. O valor de 1,41 bilhão de reais em investimentos públicos no setor em 2025, o maior da série histórica, sustenta o cinema de autor. O streaming sustenta, por enquanto, o cinema de gênero: a diferença é estrutural.Os agentes que assistiram aos filmes brasileiros em Cannes no Palais J vão decidir se compram esses filmes para a Alemanha, para a Espanha, para o Japão e tantos outros países. E decisões dessa ordem não costumam ser conhecidas do grande público e nem estar nas headlines dos jornais, mas em geral é a partir delas — e não da próxima Palma de Ouro — que se desenha a exportação do audiovisual brasileiro. E o resto da indústria observa atentamente.
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