Lajes? "Parece que os políticos ou são ingénuos ou fazem-se de ingénuos"

Lajes? "Parece que os políticos ou são ingénuos ou fazem-se de ingénuos"

Lajes? "Parece que os políticos ou são ingénuos ou fazem-se de ingénuos"


O ex-candidato à Presidência da República Henrique Gouveia e Melo considerou, esta quarta-feira, que os políticos “sabem muito bem” que, nos Tratados assinados, Portugal tem “condições e restrições”, a propósito do uso da Base das Lajes por parte dos Estados Unidos da América. 

“Às vezes, parece que os nossos políticos ou são ingénuos ou fazem-se de ingénuos e fazem declarações com uma grande presença e carga de valores quando sabem muito bem que nos Tratados que nós assinámos temos condições e temos restrições que nos obrigam a determinado tipo de procedimentos e a determinado tipo, até em termos geoestratégicos, de posições e alinhamentos”, afirmou em entrevista na CNN Portugal, quando questionado se tinha compreendido a posição do Partido Socialista (PS).
Para Gouveia e Melo, se Portugal não quer ter “esses alinhamentos”, sofrerá depois “na pele problemas na segurança e defesa”. “A nossa defesa é coletiva, baseada num conceito atlantista e liberal que é a NATO, no qual os Estados Unidos têm um papel muito importante”, considerou. 
“Portanto, parece-me quase uma posição retórica e quase que ingénua vir dizer: ‘ai, meu Deus que agora passaram os aviões de combate na Base das Lajes’. Mas o que era o acordo? Que acordo assinámos? E para que servia a base? A base não é para operações militares? Estão à espera que, no momento em que as operações militares estejam a decorrer, Portugal tome a posição de ‘não, não podem decorrer determinado tipo de operações?'”, questionou.
Sobre o facto de outros países terem-no feito, o almirante deu o exemplo de Espanha, dizendo que “não é a primeira vez que o fez” e que “sofre consequências políticas disso”.
“Aliás, há uma diferença entre Portugal e Espanha na perspetiva atlântica. Espanha é menos atlântica, na perceção dos Estados Unidos, do que Portugal”, realçou. 
Questionado se Portugal poderia ter feito de outra forma ou se a Base das Lajes nos dá enquanto país uma inevitabilidade estratégica nesta relação, Gouveia e Melo afirmou que o país “tem de estar abraçado à maior potência marítima que opera no Atlântico”. 
“Se não estivermos abraçados, corremos riscos fortes quer na nossa soberania, quer na nossa capacidade de autodeterminação e, de alguma forma, de influência na nossa região. Nós temos de ter uma política diferenciada da de Espanha e essa política é precisamente o Atlantismo e o Atlântico”, disse.
E acrescentou: “De qualquer forma, não me parece que estivéssemos em condições políticas nesta fase para assumir determinados compromissos negativos, que teriam um peso muito negativo sobre o nosso futuro estratégico de curto prazo.”
Já sobre se o Governo geriu bem a situação e se as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, não lhe causaram incómodo, tendo em conta que parte da oposição viu como subserviência, o ex-candidato a Belém referiu que “dizer que somos subservientes é quase uma constatação, só que é uma constatação histórica há muito tempo”.
“Nós não éramos subservientes há quatro séculos. Depois, temos feito um percurso histórico de um país pequeno que sobrevive num conjunto de alianças e que, nesse conjunto de alianças, tenta fazer progredir os seus interesses, mas sempre de forma limitada, precisamente porque esses interesses e a capacidade de os fazer progredir está muito condicionada ao poder real que nós temos. Ter só geografia não chega, é preciso ter outras coisas”, sublinhou. 
Questionado se o Presidente da República enquanto Supremo Comandante das Forças Armadas devia ter tido uma posição mais contínua e clara relativamente a esta matéria, Henrique Gouveia e Melo disse não querer criticar António José Seguro “por diversos motivos”, entres eles o facto de não considerar “elegante” fazer críticas. 
“O Presidente da República está ainda numa fase inicial do seu mandato, tem de ter tempo para se adaptar e terá certamente os conselheiros que o rodeiam que terão de indicar-lhe, de alguma forma, quais são as posições que melhor defendem o Estado português e os interesses portugueses”, apontou. 
E continuou: “Não me parece que uma posição anti-americana, independentemente da administração que está neste momento,  seja algo que defenda os interesse português a médio e longo prazo. Por isso, temos de ter cuidado. Claro que o nosso poder, sendo limitado, de alguma forma, temos de  engolir alguns sapos.”
Sobre se, caso tivesse vencido as eleições, seria um presidente interventivo sobre este assunto logo desde a primeira hora, o ex-candidato assumiu que não haveria “cinismo”. 
“Na política há muito cinismo, muita retórica cínica. Pelo menos, diria, de forma muita clara, o que estava em jogo e qual deveria ser a nossa posição face ao que está em jogo”, indicou, acrescentando que, “em política internacional, essencialmente defendemos interesses dos países”.
“Não estamos a falar de valores e ética em política internacional. Hoje em dia, num mundo em transformação, estar de forma ingénua com pouco poder e vulnerável a defender determinado tipo de valores num determinado contexto pode ser extraordinariamente perigoso e, portanto, qualquer Presidente, qualquer responsável político, tem de pensar acima de tudo no interesse português e na capacidade de defender os interesses portugueses neste momento, que é um momento crítico da vida internacional”, concluiu. 
E o vídeo partilhado pelo ministro israelita?
Henrique Gouveia e Melo deu ainda o seu parecer acerca do vídeo que, esta quarta-feira, foi partilhado pelo ministro da Segurança israelita, Ben Gvir, onde surgem ativistas detidos ajoelhados e com as mãos atrás das costas. 
“Julgo que Portugal já tomou as medidas necessárias, que são medidas de foro diplomático. O próprio governo israelita já se veio demarcar deste ministro. De facto, este comportamento é um comportamento que não é consentâneo com um sistema democrático e o sistema israelita é um sistema democrático”, afirmou.
Na ótica do almirante, “as guerras fazem mal às democracias e esta guerra prolongada contra um conjunto de vizinhos e regiões vizinhas de Israel é, para eles, uma guerra existencial e está a criar fraturas democráticas”, salientando que Israel tem “um regime democrático”.
“A capacidade do primeiro-ministro [Benjamin Netanyahu] vir dizer, de uma forma muito objetiva, que o ministro se portou mal, julgo que é importante e é um sinal positivo”, frisou.
Sobre o facto de Espanha já ter proibido a entrada do ministro israelita em território espanhol e questionado se é uma medida plausível, Gouveia e Melo considerou que é “uma medida que demonstra uma posição”.
“Uma posição não contra um Estado, mas contra a personalidade que esse ministro representa e, de alguma forma, as suas ideias ultrarradicais. O que se viu na televisão é uma humilhação completamente desnecessária, quer em termos da segurança e dos efeitos que o próprio Estado de Israel pretende junto destas flotilhas que chegam às suas águas. Não é necessário um grau de violência e de humilhação, porque isso não serve a ninguém e muito menos a Israel neste momento”, afirmou.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, afirmou que o tratamento dado aos ativistas da flotilha Global Sumud foi “inaceitável”, depois de ter sido partilhado um vídeo pelo ministro israelita Ben Gvir, onde surgem ajoelhados e com as mãos presas atrás das costas. 
 Notícias ao Minuto | 21:52 – 20/05/2026

Publicar comentário