Governo garante até 1500 euros por hectare para limpar floresta. Basta uma fotografia

Governo garante até 1500 euros por hectare para limpar floresta. Basta uma fotografia

Governo garante até 1500 euros por hectare para limpar floresta. Basta uma fotografia

A resposta do Governo à devastação provocada pela tempestade que atingiu o Centro do país no início de 2026 está finalmente a ganhar forma: 40 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), um modelo simplificado de financiamento e uma aposta reforçada nas Operações Integradas de Gestão da Paisagem (OIGP), agora numa versão acelerada — as chamadas OIGP 2.0. As candidaturas abriram a 14 de Maio e fecham a 29 de Junho.O aviso publicado pelo Fundo Ambiental enquadra a medida na estratégia mais vasta de transformação da paisagem, mas com um carácter assumidamente excepcional: trata‑se de responder a áreas florestais “atingidas pela tempestade” Kristin, promovendo a sua recuperação rápida e, ao mesmo tempo, reduzindo o risco de incêndio que se avizinha.Em declarações ao Azul, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, simplifica a mensagem: é preciso limpar já — e o Estado paga depois.
Um apoio desenhado para a urgênciaA principal inovação do modelo está na forma como chega aos proprietários. Embora o discurso político fale em “vales”, a arquitectura do sistema assenta num financiamento integral aos municípios, que depois o distribuem pelos detentores dos terrenos.Assim, segundo explicou Maria da Graça Carvalho, o programa de “​vales floresta” mantém-se para o resto do território nacional, mas para os 22 municípios mais afectados pelas tempestades há um “bolo” financeiro de 40 milhões de euros para distribuir rapidamente e de forma simples.No aviso agora publicado, Leiria é o município que recebe a maior fatia com uma dotação que ultrapassa os 13 milhões de euros e Porto de Mós a menor com apenas 155 mil euros disponíveis. A lista de concelhos que vão beneficiar deste apoio pode ainda aumentar, admite a ministra.“São 40 milhões do PRR que os municípios das áreas da região centro mais afectadas podem concorrer e é-lhes passado a 100% esse valor”, explicou, acrescentando que as autarquias se comprometem a transferir o apoio para os proprietários “proporcional aos hectares”, entre mil e 1500 euros por hectare. A ministra já tinha mencionado a necessidade deste apoio em Março, em entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença, mas faltava definir as regras do jogo.


Não há neste processo, garante Maria da Graça Carvalho, a definição de um mínimo nem um máximo de área pertencente aos privados que avancem para as limpezas. “Serão as autarquias depois a definir esses critérios com a publicação de um edital”, esclarece.A simplificação é levada ao extremo: não há necessidade de apresentar facturas nem comprovativos de despesa das limpezas realizadas. “Basta fazerem evidência de que limparam o território. Basta uma fotografia”, garante. Num país onde o cadastro continua incompleto e o minifúndio domina, o Governo opta por reduzir a exigência burocrática para acelerar a intervenção no terreno.Municípios como intermediáriosO modelo coloca os municípios no centro do processo. Cada concelho afectado terá o seu próprio projecto PRR e uma entidade gestora responsável pela execução.“A nossa vontade é que o próprio município seja a autoridade gestora”, afirmou Maria da Graça Carvalho, admitindo o apoio das juntas de freguesia na aplicação local.Este desenho responde a um dos maiores desafios da política florestal em Portugal: a dificuldade em chegar a milhares de pequenos proprietários dispersos, muitos dos quais não têm capacidade técnica ou financeira para intervir. Ao delegar nas autarquias, o Governo tenta encurtar a distância entre o financiamento e o terreno.Os proprietários florestais devem comunicar os danos nas suas áreas florestais através da plataforma do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) criada para o efeito ou junto da câmara municipal do concelho onde se localiza a propriedade, esclarece ainda a ministra admitindo que, dependendo das candidaturas, pode vir a existir um limite de financiamento máximo, mas que essa questão “ainda não está fechada”.Uma corrida contra o tempoO calendário é apertado. As candidaturas abriram a 14 de Maio e decorrem até 29 de Junho, com execuções previstas ao longo do ano. Mas a urgência não está apenas nos prazos administrativos. Está também no risco crescente de incêndio.A ministra admite a preocupação: apesar dos esforços em curso, há ainda “muitos caminhos e estradas já abertas”, mas persistem áreas privadas de difícil acesso e com grande quantidade de material lenhoso por remover.
Nalgumas zonas de Leiria, Pombal ou Marinha Grande, o cenário é particularmente crítico: há propriedades onde caíram “80% e 90% das árvores”, constata. É este volume de combustível acumulado que transforma a recuperação num imperativo de protecção civil.Incentivo, mas também pressãoO modelo assenta num incentivo financeiro, mas não elimina o quadro de obrigações. A legislação permite ao ICNF intervir em terrenos abandonados ou sem proprietário identificado, sobretudo em situações de risco.Nos casos em que há titular identificado, a resposta é menos clara, sendo remetida para outras áreas do Governo. Ainda assim, a mensagem política é inequívoca: quem puder, deve avançar já. “Podem e devem” limpar, insistiu Maria da Graça Carvalho, sublinhando que o apoio será pago posteriormente.Mas verdade é que, como acontece noutros apoios do Governo, é preciso avançar com a limpeza para receber depois. Assim, para quem não tem meios, a solução, diz Maria da Graça Carvalho, passa pelo contacto com juntas de freguesia ou com o próprio ICNF, que pode apoiar operações de limpeza em situações concretas.


O papel central das OIGP 2.0O instrumento escolhido não é novo, mas ganha aqui um carácter de emergência. As OIGP são mecanismos que permitem gerir territórios fragmentados de forma agregada, articulando proprietários, autarquias e entidades gestoras.No aviso agora lançado, estas operações assumem um conjunto alargado de objectivos, desde a remoção de árvores caídas e gestão de biomassa até ao restabelecimento de caminhos florestais e controlo de pragas.Mais do que limpar, trata-se de reorganizar. O programa inclui também apoio técnico, cartografia e fiscalização, num esforço que pretende evitar que a recuperação se limite a uma resposta imediata e desarticulada.Ao mesmo tempo, mantém-se o objectivo estrutural que deu origem a estas operações: aumentar a resiliência da paisagem e diminuir a vulnerabilidade aos incêndios, numa lógica de longo prazo.Entre a excepção e o testeO programa das OIGP 2.0 nasce como resposta a um evento extremo — a tempestade — mas funciona também como teste à capacidade do Estado em executar políticas florestais de forma ágil.Com financiamento garantido, processo simplificado e pressão temporal elevada, o sucesso dependerá da adesão dos municípios e da rapidez com que o dinheiro chega aos proprietários. Porque, como sintetiza a ministra, a floresta continua a ser “a maior ferida” deixada pelo temporal.E, com o Verão à porta, uma ferida aberta como esta pode rapidamente transformar-se numa tragédia.

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